sexta-feira, 28 de julho de 2017

OS NOMES OU A CADEIRA QUE RANGE


Nada nem ninguém tem nome. Não é natural ter nome. Pelo menos era assim nesse longo período de tempo desde o Big Bang até haver esta coisa estranha chamada humanidade. Sabe-se lá em que ponto da nossa evolução é que desatámos a dar nomes às coisas, às plantas, aos animais e a nós mesmo. Os nomes foram inventados a condizer com o aspeto das coisas. Imaginem que não era assim e que chamávamos colibri a um elefante e crocodilo a uma joaninha. Uma cadeira é uma cadeira. Não é uma montanha. Fica-lhe bem o nome cadeira assim como à montanha fica-lhe bem ser montanha. Já viram eu a dizer a alguém: Puxe por aquela montanha e sente-se. 

Por falar nisso, a minha cadeira range por todo o lado e a segurança não será muita. Mesmo que fosse bem segura não servia para nenhuma atividade de montanhismo. Perdão: cadeirismo. 

Os nomes das pessoas também deviam ter algo a ver com os donos, mas isso não é possível. É que nós crescemos e envelhecemos. Mudamos de aspeto, mas não mudamos de nome. Em qualquer ponto da nossa vida vamos estar desalinhados com o nosso nome. Miguel fica bem a um menino, mas o Miguelito, se tiver sorte e saúde, pode chegar aos cem anos ou mais. Nessa altura devia chamar-se Joaquim, Américo ou Albertino. 

A cadeira continua a queixar-se do meu peso. A queixar-se ou a ameaçar atirar-me ao chão. Não entendo este range, range. Não falo cadeirês. 

Outro problema com os nomes das pessoas é que é escolhido ainda durante a gravidez. Não se pode escolher um nome em função do aspeto da criança. Eu sei que há as ecografias, mas não mostram grande coisa. Pelo menos eu já vi algumas e não vejo rigorosamente nada. Se fosse o pai talvez conseguisse distinguir um lindo menino naquele monte de manchas em forma de molde de funil. De qualquer forma há quem veja o sexo do bebé e é nesse ponto que eu admiro os olhos da medicina. Se for rapaz já podemos riscar da lista os nomes de Cátia Raquel, Jéssica Beatriz ou Vanessa Isabel. Já só ficam o Ruben, o Afonso, o Rodrigo e o Duarte. 

A minha cadeira dá sinais de ceder. É melhor começar a preocupar-me.

Depois dos nomes vêm os apelidos. São os nomes herdados dos pais que já vêm dos avós, bisavós e por aí fora através da árvore genealógica da qual somos os últimos frutos. Todos temos a nossa árvore, mas haverá um ponto em que encontramos um tronco comum sem serem os míticos Adão e Eva. Não é preciso mito nenhum para explicar nada. A matemática serve muito bem. Cada um de nós é filho de dois, neto de quatro, bisneto de oito, trisneto de dezasseis, tetraneto de trinta e dois… Estamos assim perante uma progressão geométrica de razão dois. (cada termo é o dobro do anterior). Em apenas cinquenta gerações já atingimos um número de antepassados muito superior ao número de pessoas que existem ou existiram em todas as gerações somadas. Logicamente temos que ter muitos antepassados comuns e muitos mais quanto mais recuarmos no tempo até chegarmos à conclusão bíblica de que somos todos irmãos. 

Podia dizer mais qualquer coisa, mas vou trocar de cadeira antes de arrumar com o samarro no chão. Fica para a próxima.

(Vítor Fernandes in "http://vpf-escrita.blogspot.pt/2014/05/ponto-zero-012.html")

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