segunda-feira, 24 de julho de 2017

HOJE HÁ CIRCO

Foto meramente ilustrativa de autor desconhecido
“Há cá comédias”. A frase ecoava pela aldeia, muito antes de um altifalante, de pinha e corneta, confirmar a notícia. Nós, os putos, corríamos para o largo da fonte. Era aí que os comediantes costumavam montar o seu aparato todo. Um carro, uma roulotte, Um trapézio com cinco, seis metros e, era tudo. Eles diziam que eram um circo, mas o povo chamava-lhe comediantes ou saltimbancos. No altifalante cantavam a Tonicha e o Conjunto António Mafra. A música era interrompida de vez em quando por uma voz rouca: “hoje, em Lagos da Beira, grandioso espectáculo de Circo. Trapezistas voadores, ilusionismo, malabaristas, contorcionistas e os engraçados palhaços: Belita e Falta D’ar”. À noite, o povo fazia uma roda em volta do largo. Um homem tirava pombas e ramos de flores de caixas que estavam vazias. Uma menina dobrava-se toda até chegar com o queixo aos calcanhares. A dupla de palhaços fazia as delícias de miúdos e graúdos. Uma senhora, com as mãos atrás das costas, recortava papel colorido e dali saía um naperon, o leme de um navio, uma palmeira… Depois era o rapaz que subia ao trapézio. O coração do povo parava de admiração e medo. Depois de algumas piruetas, terminava com um salto mortal. Respirava-se de alívio quando ele punha os pés no chão. Uma menina dava a volta ao povo a vender rifas. Os forretas fugiam. Eu tinha sempre dez tostões para a ocasião. Por fim, havia aplausos. No dia seguinte, desmontavam tudo e seguiam para outra terra. Durante uma semana, não se falava noutra coisa. Nós, os putos, montávamos o nosso próprio circo. O espectáculo era anunciado por um funil. Por falta de formação, apenas repetíamos as piadas de Belita e Falta D’ar. Um dia, um desses circos, trouxe um chimpanzé. A rapaziada, primeiro a medo, depois mais afoita, foi desafiando o macaco para ver macacadas. Acontece que o animal não estava para isso e vai de atirar pedras em todas as direcções. Muitos vidros escaparam por milagre, mas a cabeça de um rapaz teve direito a uma pedrada e consequentes seis pontos.

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