quinta-feira, 20 de julho de 2017

BRANDOA

A minha tia Francelina foi uma das muitas pessoas que, nos anos 50/60, procuraram em Lisboa melhores condições de vida. Foi então viver para a Brandoa, onde eu quase nasci. De facto, a minha mãe estava em casa dessa saudosa tia quando chegou a hora de eu nascer. Não havia uma ambulância, nem um táxi. Um senhor deu-lhe boleia para o Hospital de Santa Maria. Não havia cama para ela por causa de uma infestação na Maternidade Magalhães Coutinho. Foi então encaminhada para a “Alfredo da Costa” onde, finalmente, nasci. Quando fui para a Brandoa, fui ocupar um berço que a minha tia tinha dos filhos, Jorge e Luís. Primeiro foi preciso desocupar o berço, não dos meus primos, mas de uma gata que o usou para dar à luz seis lindos gatinhos. Durante a minha infância e adolescência passei muitas férias na Brandoa. A minha chegada à Rua 1-A, era um acontecimento. Dias antes, já a minha tia andava a anunciar, à vizinhança, a chegada da irmã e do sobrinho. Recordo aqui algumas pessoas adultas e crianças que comigo brincaram. A Dona Gina, esposa do polícia Valentim, tinha uma mercearia onde íamos comprar um rajá. Era um gelado caseiro que, basicamente, era refresco congelado com um palito para segurar. A dona Isilda era das poucas pessoas a ter televisão. Ali juntava os garotos todos sentados no chão a ver o Palhaço Bozo. Tinha um filho de nome Cláudio e uma filha de nome Belmira (A Mirinha). O Claudio era ainda bebé. A Mirinha era da minha idade e brincávamos aos papás e às mamãs. Era uma chatice quando lhe tinha que adormecer as bonecas. Outras miúdas com quem brinquei eram a Paula e a Rosa, filhas de um tal Ferrão. De rapazes, recordo o Vladimiro, que tinha uma bicicleta e o Vítor com quem travava duelos de morte ao pôr-do-sol com pistolas de fulminantes. Recordo outros rostos, mas os nomes já se desvanecem nas brumas da memória. Além do Jorge e do Luís, a minha tia teve mais dois filhos: O Carlos e a Lurdes. Vieram um a seguir ao outro com partos difíceis. Foi nessa época que passei mais tempo na Brandoa e ganhei amizades. Ainda acompanhei o crescimento desses primos mais novos. O Carlos era bem saudável, mas a Lurdes nasceu com um problema cardíaco, só resolvido aos três anos com uma operação de alto risco. Recordo a minha tia Francelina que me enchia de carinho, mas recordo também o meu tio Manuel, que me estimava sem distinção dos próprios filhos. Por vezes até era privilegiado, mesmo quando me obrigava a comer a sopa. Hoje, os meus primos estão longe. Os meus tios já partiram do mundo, mas não da minha memória. Todos eles habitam no meu coração.

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