terça-feira, 25 de julho de 2017

A MENINA E O LIVRO

A menina destacou-se do grupo de colegas que, ordeiramente, entrou na feira do livro. Saiu das duas filas paralelas que a professora e a auxiliar já não conseguiam manter. Eu sei que é por questões de segurança, mas faz-me sempre pena ver as crianças enfileiradas debaixo de uma chuva de “nãos”. Não saiam da fila, não corram, não larguem a mão do colega, não façam barulho… Não fui criado assim e cresci feliz. A menina furou as regras e foi direita à banca dos livros mais próxima. Teve que se pôr nos bicos dos pés, porque os seus seis ou sete anitos, ainda não chegavam aos livros. Pegou num livro bem colorido. Abriu. A felicidade instalou-se no seu rosto. A auxiliar chamou.

- Ana. Ó Anita. (Nome fictício) 

Ela não ouviu. Ela não estava ali. Ela viajava por um mundo mágico criado por quem escreveu e ilustrou aquelas páginas. Que grande prazer seria para o autor se ali estivesse no meu lugar a observar a cena. Divina felicidade é criar mundos onde as crianças possam entrar, viajar, sonhar e crescer.

- Ana. Ó Anita.

O chamamento foi mais ríspido, mas ela não ouviu. A sua boca sorria, os seus olhos sorriam e todo o seu corpo franzino sorria. Por momentos tive a ilusão de que a banca dos livros, a enorme tenda da feira, a cidade e todo o universo sorriam também. A auxiliar, impaciente, veio e tirou-lhe o livro da mão. Levou-a pela mão, mas ela foi sempre a olhar para trás. Nessa altura, os seus olhos cruzaram-se com os meus. Vi naquele olhar, inocente e belo, o desejo de um dia construir mundos onde as crianças possam entrar, viajar, sonhar e crescer.

(http://vpf-escrita.blogspot.pt/2017/05/ponto-zero-23-menina-e-o-livro.html)

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