sexta-feira, 28 de julho de 2017

OS NOMES OU A CADEIRA QUE RANGE


Nada nem ninguém tem nome. Não é natural ter nome. Pelo menos era assim nesse longo período de tempo desde o Big Bang até haver esta coisa estranha chamada humanidade. Sabe-se lá em que ponto da nossa evolução é que desatámos a dar nomes às coisas, às plantas, aos animais e a nós mesmo. Os nomes foram inventados a condizer com o aspeto das coisas. Imaginem que não era assim e que chamávamos colibri a um elefante e crocodilo a uma joaninha. Uma cadeira é uma cadeira. Não é uma montanha. Fica-lhe bem o nome cadeira assim como à montanha fica-lhe bem ser montanha. Já viram eu a dizer a alguém: Puxe por aquela montanha e sente-se. 

Por falar nisso, a minha cadeira range por todo o lado e a segurança não será muita. Mesmo que fosse bem segura não servia para nenhuma atividade de montanhismo. Perdão: cadeirismo. 

Os nomes das pessoas também deviam ter algo a ver com os donos, mas isso não é possível. É que nós crescemos e envelhecemos. Mudamos de aspeto, mas não mudamos de nome. Em qualquer ponto da nossa vida vamos estar desalinhados com o nosso nome. Miguel fica bem a um menino, mas o Miguelito, se tiver sorte e saúde, pode chegar aos cem anos ou mais. Nessa altura devia chamar-se Joaquim, Américo ou Albertino. 

A cadeira continua a queixar-se do meu peso. A queixar-se ou a ameaçar atirar-me ao chão. Não entendo este range, range. Não falo cadeirês. 

Outro problema com os nomes das pessoas é que é escolhido ainda durante a gravidez. Não se pode escolher um nome em função do aspeto da criança. Eu sei que há as ecografias, mas não mostram grande coisa. Pelo menos eu já vi algumas e não vejo rigorosamente nada. Se fosse o pai talvez conseguisse distinguir um lindo menino naquele monte de manchas em forma de molde de funil. De qualquer forma há quem veja o sexo do bebé e é nesse ponto que eu admiro os olhos da medicina. Se for rapaz já podemos riscar da lista os nomes de Cátia Raquel, Jéssica Beatriz ou Vanessa Isabel. Já só ficam o Ruben, o Afonso, o Rodrigo e o Duarte. 

A minha cadeira dá sinais de ceder. É melhor começar a preocupar-me.

Depois dos nomes vêm os apelidos. São os nomes herdados dos pais que já vêm dos avós, bisavós e por aí fora através da árvore genealógica da qual somos os últimos frutos. Todos temos a nossa árvore, mas haverá um ponto em que encontramos um tronco comum sem serem os míticos Adão e Eva. Não é preciso mito nenhum para explicar nada. A matemática serve muito bem. Cada um de nós é filho de dois, neto de quatro, bisneto de oito, trisneto de dezasseis, tetraneto de trinta e dois… Estamos assim perante uma progressão geométrica de razão dois. (cada termo é o dobro do anterior). Em apenas cinquenta gerações já atingimos um número de antepassados muito superior ao número de pessoas que existem ou existiram em todas as gerações somadas. Logicamente temos que ter muitos antepassados comuns e muitos mais quanto mais recuarmos no tempo até chegarmos à conclusão bíblica de que somos todos irmãos. 

Podia dizer mais qualquer coisa, mas vou trocar de cadeira antes de arrumar com o samarro no chão. Fica para a próxima.

(Vítor Fernandes in "http://vpf-escrita.blogspot.pt/2014/05/ponto-zero-012.html")

quinta-feira, 27 de julho de 2017

SOB O SIGNO DO ROCK

O dia de ontem foi gerido pelo signo do Rock. No dia em que Sir Mick Jagger completou setenta e quatro anos, tivemos Xutos & Pontapés em Oliveira do Hospital. Já no post anterior falei do Xutos e da sua importância na nossa música. O álbum “Circo de Feras” apanhou-me na tropa em 1987. Logo no ano seguinte sai o álbum “88” que também ainda me apanhou na mesma situação. Deste disco faz parte o tema “A Minha Casinha”. Um camarada meu tinha a seguinte versão da letra:

As saudades que eu já tenho
Da minha casa de banho,
Onde só lá cago eu.
Meu Deus, como é bom cagar 
e ao mesmo tempo sonhar
Com as miúdas do liceu. 

Este dia, marcado pelo Rock, ainda me trouxe mais uma surpresa. A minha amiga Cristina, quase sempre ausente, navegando pelos catorze mares, deu-me o meu presente de aniversário, apenas com três meses de atraso. Como mostra a foto, tive direito a uma magnífica almofada com o símbolo da minha banda de eleição. Pequenos e valiosos mimos que me deixam feliz. Obrigado Cristina. Valeu a pena ensinar-te a desenhar uma borboleta quando tinhas sete anitos. Valeu a pena ver-te crescer. Tudo vale a pena quando se tem pessoas como tu. Que o espírito do Rock esteja sempre connosco.


quarta-feira, 26 de julho de 2017

AQUI... XUTOS & PONTAPÉS!!!!

Em 1980 tinha 14 anos. Assim posso dizer que a década de 80, pródiga em grandes mudanças, foi a década que me viu ir de menino até homem. Quando em 1980 apareceu o Rui Veloso a cantar o Chico Fininho, deu-se a grande revolução da música portuguesa. Rock cantado em português era a novidade que fez disparar o aparecimento de novas bandas. Júlio Isidro, no seu mítico programa “Passeio dos Alegres”, apresentava uma nova banda todos os domingos. Assim aparecem os GNR, UHF, Iodo, NZZN, Albatroz, Táxi, CTT, Trabalhadores do Comércio, Salada de Fruta, Rádio Macau, Rockivários e Xutos & Pontapés, entre outros. Claro que não havia mercado para tanta banda e a maior parte acabou por desaparecer. Ficaram os bons ou os que tiveram mais sorte em cair nas boas graças do público. Entre os sobreviventes ficaram os Xutos. Eles, tal como os UHF e outros, já existiam antes da explosão do “rock português”, mas é nessa altura que dão nas vistas. Ainda assim, só em 1987, com o lançamento do histórico álbum “Circo de Feras”, conquistam o grande público de forma marcante. Os Xutos são os nossos Rolling Stones. Eles não negam a influência que a Grande Banda teve na sua vida. Eles têm a mesma magia de transformar em clássico qualquer música que lancem. Eles têm aquela mística de unir gerações. Nos seus concertos é possível ver as artroses a conviver com as borbulhas em perfeita harmonia. Essa magia vai acontecer logo à noite em Oliveira do Hospital, precisamente no dia em que Mick Jagger faz 74 anos. Noite mágica, certamente.

terça-feira, 25 de julho de 2017

5.000 VISITAS


A MENINA E O LIVRO

A menina destacou-se do grupo de colegas que, ordeiramente, entrou na feira do livro. Saiu das duas filas paralelas que a professora e a auxiliar já não conseguiam manter. Eu sei que é por questões de segurança, mas faz-me sempre pena ver as crianças enfileiradas debaixo de uma chuva de “nãos”. Não saiam da fila, não corram, não larguem a mão do colega, não façam barulho… Não fui criado assim e cresci feliz. A menina furou as regras e foi direita à banca dos livros mais próxima. Teve que se pôr nos bicos dos pés, porque os seus seis ou sete anitos, ainda não chegavam aos livros. Pegou num livro bem colorido. Abriu. A felicidade instalou-se no seu rosto. A auxiliar chamou.

- Ana. Ó Anita. (Nome fictício) 

Ela não ouviu. Ela não estava ali. Ela viajava por um mundo mágico criado por quem escreveu e ilustrou aquelas páginas. Que grande prazer seria para o autor se ali estivesse no meu lugar a observar a cena. Divina felicidade é criar mundos onde as crianças possam entrar, viajar, sonhar e crescer.

- Ana. Ó Anita.

O chamamento foi mais ríspido, mas ela não ouviu. A sua boca sorria, os seus olhos sorriam e todo o seu corpo franzino sorria. Por momentos tive a ilusão de que a banca dos livros, a enorme tenda da feira, a cidade e todo o universo sorriam também. A auxiliar, impaciente, veio e tirou-lhe o livro da mão. Levou-a pela mão, mas ela foi sempre a olhar para trás. Nessa altura, os seus olhos cruzaram-se com os meus. Vi naquele olhar, inocente e belo, o desejo de um dia construir mundos onde as crianças possam entrar, viajar, sonhar e crescer.

(http://vpf-escrita.blogspot.pt/2017/05/ponto-zero-23-menina-e-o-livro.html)

segunda-feira, 24 de julho de 2017

HOJE HÁ CIRCO

Foto meramente ilustrativa de autor desconhecido
“Há cá comédias”. A frase ecoava pela aldeia, muito antes de um altifalante, de pinha e corneta, confirmar a notícia. Nós, os putos, corríamos para o largo da fonte. Era aí que os comediantes costumavam montar o seu aparato todo. Um carro, uma roulotte, Um trapézio com cinco, seis metros e, era tudo. Eles diziam que eram um circo, mas o povo chamava-lhe comediantes ou saltimbancos. No altifalante cantavam a Tonicha e o Conjunto António Mafra. A música era interrompida de vez em quando por uma voz rouca: “hoje, em Lagos da Beira, grandioso espectáculo de Circo. Trapezistas voadores, ilusionismo, malabaristas, contorcionistas e os engraçados palhaços: Belita e Falta D’ar”. À noite, o povo fazia uma roda em volta do largo. Um homem tirava pombas e ramos de flores de caixas que estavam vazias. Uma menina dobrava-se toda até chegar com o queixo aos calcanhares. A dupla de palhaços fazia as delícias de miúdos e graúdos. Uma senhora, com as mãos atrás das costas, recortava papel colorido e dali saía um naperon, o leme de um navio, uma palmeira… Depois era o rapaz que subia ao trapézio. O coração do povo parava de admiração e medo. Depois de algumas piruetas, terminava com um salto mortal. Respirava-se de alívio quando ele punha os pés no chão. Uma menina dava a volta ao povo a vender rifas. Os forretas fugiam. Eu tinha sempre dez tostões para a ocasião. Por fim, havia aplausos. No dia seguinte, desmontavam tudo e seguiam para outra terra. Durante uma semana, não se falava noutra coisa. Nós, os putos, montávamos o nosso próprio circo. O espectáculo era anunciado por um funil. Por falta de formação, apenas repetíamos as piadas de Belita e Falta D’ar. Um dia, um desses circos, trouxe um chimpanzé. A rapaziada, primeiro a medo, depois mais afoita, foi desafiando o macaco para ver macacadas. Acontece que o animal não estava para isso e vai de atirar pedras em todas as direcções. Muitos vidros escaparam por milagre, mas a cabeça de um rapaz teve direito a uma pedrada e consequentes seis pontos.

SKETCHBOOK - 2


quinta-feira, 20 de julho de 2017

BRANDOA

A minha tia Francelina foi uma das muitas pessoas que, nos anos 50/60, procuraram em Lisboa melhores condições de vida. Foi então viver para a Brandoa, onde eu quase nasci. De facto, a minha mãe estava em casa dessa saudosa tia quando chegou a hora de eu nascer. Não havia uma ambulância, nem um táxi. Um senhor deu-lhe boleia para o Hospital de Santa Maria. Não havia cama para ela por causa de uma infestação na Maternidade Magalhães Coutinho. Foi então encaminhada para a “Alfredo da Costa” onde, finalmente, nasci. Quando fui para a Brandoa, fui ocupar um berço que a minha tia tinha dos filhos, Jorge e Luís. Primeiro foi preciso desocupar o berço, não dos meus primos, mas de uma gata que o usou para dar à luz seis lindos gatinhos. Durante a minha infância e adolescência passei muitas férias na Brandoa. A minha chegada à Rua 1-A, era um acontecimento. Dias antes, já a minha tia andava a anunciar, à vizinhança, a chegada da irmã e do sobrinho. Recordo aqui algumas pessoas adultas e crianças que comigo brincaram. A Dona Gina, esposa do polícia Valentim, tinha uma mercearia onde íamos comprar um rajá. Era um gelado caseiro que, basicamente, era refresco congelado com um palito para segurar. A dona Isilda era das poucas pessoas a ter televisão. Ali juntava os garotos todos sentados no chão a ver o Palhaço Bozo. Tinha um filho de nome Cláudio e uma filha de nome Belmira (A Mirinha). O Claudio era ainda bebé. A Mirinha era da minha idade e brincávamos aos papás e às mamãs. Era uma chatice quando lhe tinha que adormecer as bonecas. Outras miúdas com quem brinquei eram a Paula e a Rosa, filhas de um tal Ferrão. De rapazes, recordo o Vladimiro, que tinha uma bicicleta e o Vítor com quem travava duelos de morte ao pôr-do-sol com pistolas de fulminantes. Recordo outros rostos, mas os nomes já se desvanecem nas brumas da memória. Além do Jorge e do Luís, a minha tia teve mais dois filhos: O Carlos e a Lurdes. Vieram um a seguir ao outro com partos difíceis. Foi nessa época que passei mais tempo na Brandoa e ganhei amizades. Ainda acompanhei o crescimento desses primos mais novos. O Carlos era bem saudável, mas a Lurdes nasceu com um problema cardíaco, só resolvido aos três anos com uma operação de alto risco. Recordo a minha tia Francelina que me enchia de carinho, mas recordo também o meu tio Manuel, que me estimava sem distinção dos próprios filhos. Por vezes até era privilegiado, mesmo quando me obrigava a comer a sopa. Hoje, os meus primos estão longe. Os meus tios já partiram do mundo, mas não da minha memória. Todos eles habitam no meu coração.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

O CORSÁRIO NEGRO

O CORSÁRIO NEGRO
Cresci a ler banda desenhada. Muita gente dizia que me faziam falta outras leituras. Isto, como se a BD não fosse boa leitura. Já nesse tempo era o parente pobre das artes, apesar de toda a sua riqueza. Já tinha uns doze anos quando me deram um livro que não era banda desenhada. Com quase duzentas páginas tinha umas oito ilustrações. Torci o nariz, mas comecei a leitura. O livro era o Corsário Negro de Emilio Salgari. Escritor italiano de Verona, nascido em 1862 e falecido em 1911. Destacou-se na escrita de inúmeras novelas de aventuras, de onde se destaca “Sandokan, o tigre da Malásia” e “O corsário negro”. Comecei aquela leitura que supunha aborrecida, pela ausência da imagem, mas rapidamente entrei naquele mundo. Depressa me vi a navegar no navio “Relâmpago” no meio dos piratas da Tartarugas. Conheci de perto o drama daquele corsário com sede de vingança pela morte dos irmãos. A isto junta-se a tragédia de se apaixonar pela filha do seu inimigo de morte. Depois deste livro, que conservo ainda, li dezenas de livros do escritor veronês. Foi o ponto de partida para o vicio da leitura que ainda mantenho. Uma reedição da obra de Salgari, seria boa ideia. O cinema, tão falto de ideias, também podia ir ali beber. Resta dizer que quem me ofereceu esse livro foi a Dona Dinora França, esposa de Tarquínio Hall. Pessoa de elevada nobreza de carácter e uma amiga que aqui também recordo com saudade. 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

SKETCHBOOK - 1







O GALO

Foto e montagem - Vítor Fernandes
Quando o galo se vira para Meruge, temos bom tempo. Quando se vira para Oliveira do Hospital, temos chuva. Note-se que estas localidades nada têm a ver com o tempo que vai fazer. Meruge é terra de gente boa, mas não é de lá que vêm os dias de sol. De Oliveira também não vem a chuva, embora seja lá que estão os manda-chuvas. Quem manda é o vento, porque o galo é um catavento. É como algumas pessoas que andam ao sabor dos ventos mais favoráveis, nem que tenham que vender a alma ao diabo. O galo da torre da minha aldeia já ali está desde 1860. São mais de 150 anos a adivinhar o tempo que vai fazer. É muito tempo para um galo. Como está colocado sobre uma esfera, o meu avô dizia que tinha posto um ovo. Eu, com o meu espirito crítico ainda em formação, não acreditava. Ponto 1 – Os ovos não são esféricos. Ponto 2 – Os ovos não são negros. Ponto 3 – Os galos não põem ovos. Ao lado de minha casa havia um gabinete que era uma extensão da Casa do Povo de Oliveira do Hospital. Ali trabalhava o Sr. Tavares, senhor já idoso e simpático. Um dia olhou para a torre e exclamou: Olha… roubaram o pássaro! Alerta geral a dobrar. Primeiro porque nunca ninguém tinha chamado pássaro ao galo e julgaram que tinha sido assaltada a Casa Pássaro – Café e Mercearia. Excluída essa hipótese, olhou o povo para a torre, mas lá estava o galo. Pura ilusão. O Sr. Tavares estava a ver o galo de frente e, não lhe distinguindo rabo nem cabeça, até parecia que não estava lá. Estava sim e continua a estar a dar cartas ao Instituto Português do Mar e da Atmosfera. Um dia sonhei que o galo tinha fugido, levando o seu poleiro esférico com ele. Foi ver outras terras, outros galos e outras galinhas. Um galo, mesmo de ferro, também tem as suas necessidades. Sempre são mais de 150 anos a adivinhar o tempo que vai fazer. É muito tempo para um galo.

sábado, 15 de julho de 2017

A ALEGORIA DO ESPELHO

Resultado de imagem para ESPELHOLevantei-me e olhei para o espelho. Lá estava eu a olhar para mim. Segui para a casa de banho. Enquanto esvaziava as entranhas, assaltou-me uma dúvida. Será que aquele outro “eu” tinha ficado no espelho? Voltei para o quarto e, um bocado a medo, espreitei para o espelho. Sim… lá estava eu a olhar para mim. Quando vou embora, ele, que sou eu, fica lá. E agora? Será que eu sou eu ou ele é que sou eu? Olhei com mais atenção e vi que é fácil confundir. Ele tem a minha cara. Os mesmos olhos distantes, o mesmo nariz esquisito, a mesma boca, as mesmas rugas, a mesma roupa e, até, os mesmos movimentos. Será que também tem a mesma vida? As mesmas paixões, ilusões, desilusões, sonhos, desejos, vícios e manias? E o passado? Que passado é o dele. Dizem que o passado não importa, mas sem passado não somos nada. Ele é alguém. É alguém que sou eu. O que será que ele está a pensar? Pela expressão do rosto, parece que está a pensar o mesmo que eu. Se assim for, talvez eu e ele sejamos a mesma pessoa. Ele sou eu e eu sou ele. Essa ideia conforta-me. Se há tanta gente feliz por acreditar em ideias improváveis, fantasiosas e bizarras, porque é que eu não faço o mesmo? Respirei fundo e resolvi acreditar. Primeiro senti-me bem, mas a dúvida persistiu e angustiou-me. Desisti de acreditar por necessidade de conforto e prefiro ira atrás das respostas, mesmo que nunca as encontre. O que realmente dá sentido à vida é a busca incessante e não qualquer fé cega baseada em coisa nenhuma. Um dia, talvez atravesse o espelho e enfrente aquele “eu” que olha para mim, ainda confuso, mas mais confiante. Um dia, talvez…

terça-feira, 11 de julho de 2017

O EXORCISTA

Tomei conhecimento de uma história, passada nos antigamentes, que podia dar origem a um dos meus contos, mas não resisto em contar. Até desconfio que ainda há disto.

Antigamente, tal como hoje, havia casais que não conseguiam ter filhos. Claro que nesse tempo, tal como ainda hoje, a culpa era da mulher. Homem que é homem não sofre de esterilidade. Só a mulher consultava a medicina e a medicina dizia que não abanando a cabeça. Isto aqui está tudo normal. Continuem a tentar. Esgotado o poder da ciência, recorriam a outros poderes. Havia então uma senhora lá para os lados de Vila Nova de Poiares que resolvia esses casos com uma taxa de sucesso a roçar os 100%. A paciente teria que passar uma noite na casa dela numa determinada semana que lhe era revelada por vozes do além. A senhora explicava então à paciente que o seu corpo estava possuído por um ser maligno que se entrepunha entre ela e o marido. A solução era dormir com um homem desconhecido e disposto a sugar-lhe o malvado espírito. Era um bocado constrangedor e nada barato porque além das rezas da senhora, era preciso pagar ao jovem voluntário, robusto e mártir. Por estranho que pareça, jovens corajosos e voluntários era coisa que não faltava. É certo que o casal pagava bem e ficava muito agradecido. É certo que ficavam os rapazes satisfeitos por fazer boas acções, mas sempre era uma noite a enfrentar seres malignos. Após a quente e extenuante noite de exorcismo, aconselhava-se o marido a cumprir as suas funções com a maior brevidade possível, não fosse o espírito maligno instalar-se outra vez no gargalo parturiente da esposa. Isso acontecia muita vez, visto que muitos casais tinham que recorrer à sábia senhora quando desejavam mais filhos. Nove meses depois dava-se o milagre. Lá nasciam meninos e meninas com traços da mãe e com outros traços desconhecidos. Casais morenos tinham filhos louros e vice-versa. A natureza está cheia de mistérios.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

CIÊNCIA AO QUILO

Autor desconhecido
Numa pesquisa na Internet sobre características do nosso planeta, encontrei um artigo sobre o assunto num site brasileiro chamado “Mundo Educação”. Além de uma escrita patética encontrei verdadeiras preciosidades “científicas”. Aqui ficam transcritas em letra maiúscula para se distinguirem dos meus comentários. 

A TERRA REALIZA DIVERSOS MOVIMENTOS, PORÉM OS PRINCIPAIS SÃO OS DE ROTAÇÃO E TRANSLAÇÃO. 

Ok, estes são os principais e quais são os outros? Marcha atrás? Acima abaixo? Zig-zag? 

A RESPEITO DA FORMAÇÃO DO PLANETA TERRA EXISTEM DUAS EXPLICAÇÕES: O EVOLUCIONISMO E O CRIACIONISMO, O PRIMEIRO SE BASEIA NA TEORIA DO BIG BANG E O SEGUNDO ACREDITA NA CRIAÇÃO DIVINA, OU SEJA, CRIADA POR DEUS. 

Ponto 1 – O Criacionismo não explica coisa nenhuma. É apenas uma história engraçada como muitas outras próprias das religiões e do folclore. Ponto 2 – O evolucionismo não explica a formação da Terra, mas sim a origem e evolução da vida na Terra. Ponto 3 – O evolucionismo não se baseia na Teoria do Big Bang nem esta teoria explica a formação da Terra, mas sim do próprio Universo. 

OS ELEMENTOS QUE FAVORECEM A VIDA NA TERRA SÃO CHAMADOS DE BIOSFERA OU “ESFERA DA VIDA”, ESSA É COMPOSTA PELA LITOSFERA, ATMOSFERA E HIDROSFERA 

A Biosfera é uma das quatro camadas da Terra composta pelas condições ambientais que suportam a existência de vida. Embora tenha elementos das outras camadas que são a Litosfera (camada sólida - rochas), Hidrosfera (camada líquida – água) e Atmosfera (camada gasosa – ar), é uma camada à parte e não o somatório das outras três. 

Por fim a cereja em cima do bolo: 

DIÂMETRO TOTAL DO PLANETA: 510 MILHÕES DE QUILÓMETROS QUADRADOS. 

Medir um diâmetro em quilómetros quadrados é o mesmo que pesar batatas em graus celsius ou medir gasolina em centímetros. Ok, já bebi cerveja ao metro, mas a coisa não é bem assim. Por acaso os 510 milhões de Km2 são o valor aproximado da área terrestre, mas confundir área com diâmetro (12 742 km) é estranho. É por estas e por outras que há jovens estudantes convencidos que o Mar Morto está enterrado, Mário Soares foi o primeiro rei de Portugal e a Guerra Fria foi no Inverno. Assim sugiro à juventude e a toda a gente que consultem o mesmo assunto em vários sites e procurem os mais fidedignos. Em últimos caso vejam se há lá por casa uma enciclopédia daquelas de 50 volumes ou procurem numa biblioteca.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

MUDAR O DESTINO...

Podemos nós em simples gestos marcar as pessoas e alterar-lhe a vida? Refiro-me a gestos tão simples, como uma palavra de conforto, uma pequena ajuda ou um bom conselho. Em certa altura, no Facebook, as pessoas perguntavam aos amigos, qual a primeira recordação que tinham delas. Uma amiga recordou um incêndio em casa dos avós. Nada grave, mas aterrorizante para uma criança. Ela confessa que se sentiu protegida com a minha chegada. Nunca imaginei, nem na altura nem nunca, que tinha provocado esse efeito. Achei comovente ela recordar-se quase trinta anos depois. Outra amiga recordou os seus oito anos, quando eu, já com trinta, lhe ensinei a desenhar uma borboleta. Claro que nada disto foi determinante para a vida das minhas amigas. Estou apenas a refletir em atos a que não ligamos, mas que ficam gravados na memória das pessoas. Será que alguma vez fui determinante para a vida de alguém? Será que alterei algum destino? Talvez não ou talvez sim. Afinal há pessoas que me marcaram e mal sabem que eu existo. Na lonjura dos meus catorze ou quinze anos, a Dr. Iolanda, professora de educação física disse-me a seguinte frase: “Enquanto deres importância àquilo que os outros possam dizer ou pensar de ti, esquece qualquer desejo de seres feliz”. Fiz desta frase um dos meus mandamentos da minha filosofia de vida. Um dia, o meu saudoso amigo Dr. Tarquínio Hall, disse o seguinte: “Nós, que buscamos o conhecimento, temos a missão, o dever moral de dar o pouco que tivermos a quem ainda tenha menos.” Não é por acaso que crio blogs e páginas no Facebook, com o único propósito de divulgar cultura em todas as vertentes. No meu primeiro ano do Ciclo Preparatório (atual 5.ºAno) tive como professor de educação visual o Dr. António Simões Saraiva. Ele mandou fazer um desenho livre. Reparou e elogiou o meu traço, mas também detetou alguns erros de composição. Sentou-se ao meu lado e ensinou-me as principais regras para um desenho bem composto. Nesse dia comecei a estudar desenho e, quarenta anos depois, ainda não parei. Acredito que nós somos o somatório de todas as interações que temos com os outros. Afinal, já dizia a minha avó: “Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Junta-te com os bons e serás como eles, junta-te com os maus e serás pior que eles”.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

ASSENTAR PRAÇA

Foto de Vitor Fernandes.
SEMANA DE CAMPO - PEDROSO, FERNANDES
DIAS E CLAUDINO. 
Estava hospedado em Lisboa. Naquele dia 19 de maio de 1987, levantei-me cedo e fui passear a cidade. Era como que se gozasse um último dia de liberdade. Entrei numa barbearia na Rua São Sebastião da Pedreira e expliquei ao barbeiro que ia assentar praça. O homem, sem grandes cerimónias, deixou-me quase careca enquanto assobiava uma canção desconhecida. Almocei num pequeno restaurante junto ao Parque Eduardo VII. Uma cigana teimou em ler-me a sina. Na minha mão, em que o único calo é da caneta no dedo médio, adivinhou que eu trabalhava com papéis. Pelo meu novo penteado, adivinhou que iria lidar com armas. Ainda adivinhou que tinha uma alma que me queria mal, mas tinha outra que me defendia. Quem não tem? Quando me quis vender um poderoso amuleto por quinhentos paus, pus-me a andar para a Praça de Espanha. Aí apanhei o autocarro para Setúbal. Por indicação do condutor, saí junto a uma bomba de gasolina. Logo vi mais rapazes com cara de caso a subir a rua. Encetei conversa com um deles que ainda se chamava Jorge, tal como eu ainda me chamava Vítor. Em breve seria o soldado Fernandes, mais conhecido por 394. Depressa chegámos ao Convento de Brancanes. Fui recebido pelo 1.º Sargento Carvalho que me disse no momento em que ia a entrar:


- Rapaz, ao dares mais um passo, passas a ser militar. Tens a certeza que queres entrar?

- Que remédio. – Respondi com um encolher de ombros.

Eu e os outros, fomos entregues ao 1.º Cabo Craveiro. Mandou-nos segui-lo em bichinha de pirilau sem granel. Fomos até um salão onde nos esperava o 1.º Sargento Tengarrinha. Deram-me um toldo onde coloquei calças, camisas, meias, cuecas, lenços, calções, botas e sapatilhas (ténis em lisboês). Carreguei com tudo para a caserna onde me indicaram uma cama e um armário. No caminho deparámo-nos com uma situação caricata. Um rapaz que tinha entrado para a barbearia cheio de caracóis louros, saía agora com o penteado da moda. Ferrou uma palmada nas costas ao primeiro homem fardado que viu: Então pá… para onde vou agora? Acontece que o “pá” era o Alferes Soares, Comandante da Companhia de Instrução. O nosso camarada teve ordem para encher trinta de braços, mas só chegou às dez. Obteve perdão de vinte, por ainda estar de calças de ganga e camisa tropical. O jantar foi chicharro assado para me ir habituando a um dos pratos mais habituais no restaurante B.S.S. Ir para a cama às 21.30, é que foi estranho para mim, habituado e noitadas. No dia seguinte ensinaram-me a formar na parada por alturas. Eu, rodas baixas, fiquei na primeira fila às ordens do Aspirante Cova. Homem rigoroso, divertido, competente e de grande dimensão humana.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

1000


O "ZÉ DE ESPANHA"

Lagos da Beira, Maio de 1922

Amélia andava a regar batatas com a sua mãe. Teria uns dezasseis anos e já era rapariga espigada. Andavam as duas a tagarelar quando viram um rapazinho de alguns onze ou doze anos. Foi a Amélia que o viu primeiro.

- Ó mãe… quem é aquele piqueno? 

- Sei lá. Algum vagabundo.

De facto, o rapaz, tinha esse aspeto. Mal vestido, de bolsa de pano às costas e ar cansado. Coxeava levemente de uma perna. Maria, mãe de Amélia, quis satisfazer a curiosidade.

- Ó rapaz… quem és tu? Não és de cá…

- Chamo-me José e venho de longe. Venho da raia de Espanha.

- Então és o Zé da Espanha? – Disse Amélia com ar trocista. 

Ele ficou ligeiramente envergonhado ou intimidado pela beleza da rapariga.

- Procuro trabalho… - Acabou por dizer.

- Que sabes tu fazer, rapaz? – Perguntou Maria. 

- Já fiz um pouco de tudo, mas estou mais habituado a guardar ovelhas. 

- Vai por esse povo abaixo. O que mais há é ovelhas. Por cama e comida, arranjas trabalho de certeza. 

José ou o Zé de Espanha, como Amélia o batizou, voltou a deitar a bolsa ao ombro e foi rua abaixo. As mulheres voltaram à sua lide, mas Amélia ficou a olhar para o rapaz até o deixar de ver.

- Ó mãe… Olhe que o piqueno é bem bonito. 

- Cala-te rapariga. Já és uma mulher e fica-te mal dizeres essas coisas. Não vês que ele ainda é criança. 

- Agora faz diferença, mas daqui a uns anos…

José arranjou trabalho a guardar ovelhas em troca de cama e comida. Farto de levar pancada do pai, tinha fugido de sua casa no Sabugal. Após dois anos a vaguear de aldeia em aldeia, tinha chegado a Lagos da Beira. Gostou daquela terra de gente honesta, trabalhadora e hospitaleira. Por aqui foi ficando e por aqui se fez homem. Por ironia do destino, acabou por encetar namoro com Amélia. Casaram, tiveram seis filhos e quinze netos. Eu, com orgulho, sou um desses netos.


terça-feira, 4 de julho de 2017

JULINHO BARBEIRO

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De vez em quando lá vinha a má notícia. Já trazes o cabelo muito grande – dizia a minha mãe com toda a naturalidade, mas que me soava a ameaça severa. Imaginava logo o suplício de me sentar numa cadeira com uma toalha ao pescoço e sentir aquela tesoura a fazer tombar caracóis louros. Horas de aborrecimento. Não seriam horas, mas aos sete ou oito anos, minutos ou horas é praticamente a mesma coisa. Da frase ameaçadora à execução da tortura, nunca passavam mais de dois ou três dias. Banho tomado com especial atenção às orelhas e pescoço. Seguia-se a camioneta da carreira da empresa Camilo & Filhos, L.da. lá vinha o cobrador de mala ao ombro. Cortava os bilhetes e recebia os três escudos. Os bilhetes eram enormes e davam para fazer barquinhos de papel. Quando chegava-mos a Oliveira, deitava a escada à minha mãe para passarmos na Papelaria Nogueira. Se ainda não tivesse saído a Revista do Tintim, talvez já houvesse o Mundo de Aventuras ou o Búfalo Bill. Sim, sim, mas primeiro corta-se o cabelo. Não havia remissão nem clemência. Lá atravessávamos o jardim em direção à barbearia do Julinho. Menos mal, quando não havia mais nenhum cliente e não tinha que ficar em fila de espera. A ter que ser, que acabasse depressa. Era preciso por uma tábua entre os braços da cadeira. Se o instrumento de tortura estava estudado para adultos, porque é que me faziam aquilo? Não era fácil subir lá para cima e, quando me sentava, tinha vertigens ao olhar para o chão. Depois lá vinha o tic tic da tesoura acompanhado pelas palavras suaves e bondosas do Julinho barbeiro. A promessa de um chocolate se estivesse quieto com a cabeça, amenizava o flagelo, mas só respirava fundo quando o Senhor me sacudia o pescoço e a cara com uma espécie de espanador empoeirado em pó de talco. Mais uma mirada, mais uma tesourada e pronto. Desapertava-me a toalha do pescoço e já podia descer da sinistra cadeira. Era só esperar que a minha mãe lhe desse os vinte escudos e que ele me trouxesse o prometido chocolate. Finalmente livre, já podia ir escolher o meu merecido livro à Papelaria Nogueira. Se não houvesse nada de jeito, sempre podia descer a rua até ao Supermercado José Marques da Assunção, onde a Dona Luísa da caixa também vendia banda desenhada. De cabelo cortado, já pareces outro – dizia a minha mãe. Devia parecer mesmo, já que na escola, teria que suportar os comentários do costume: xii, que carecada! Grande melão! Vais para a tropa? Ficava a ferver, mas sabia que o dia deles também haveria de chegar.

O PRINCIPEZINHO

AUTOR DESCONHECIDO
É com alguma vergonha que confesso que só li “O Principezinho” de Antoine de Saint-Exupéry aos cinquenta anos. Quando era miúdo passou-me ao lado, talvez pela minha preferência por banda desenhada. Depois cresci e amadureci a pensar que era um conto infantil. Há cerca de um ano, por sugestão de uma amiga, comprei o livro e mergulhei nele de cabeça. Só consegui vir ao cimo daquela piscina de leitura quando cheguei ao fim. Não é uma obra para crianças, nem para adultos. É uma obra para toda a gente. Em cada releitura descobre-se algo de novo. Algo que escapou na leitura anterior. Como pode um livro tão pequeno e simples ser uma cascata de lições de vida? A resposta óbvia é que o escritor é genial. Concordo plenamente e acabo por concluir que o génio é aquele que trabalha com simplicidade, humildade e coração. O livro foi lançado em 1943 e continua atual. Só as obras geniais conseguem ser assim intemporais. Continuará a ser atual daqui a cem ou duzentos anos, se ainda houver quem o leia. Muda a tecnologia, muda a sociedade, muda tudo, menos a essência do ser humano. Essa essência está cada vez mais mascarada por uma sociedade medonha que valoriza o “ter” em detrimento do “ser”. O Principezinho destapa essa essência com a maior simplicidade. Afinal, é nas coisas mais simples que se encontra o essencial e “o essencial é invisível aos olhos. Só o coração pode ver”

segunda-feira, 3 de julho de 2017

A QUINTA DAS TULIPAS

Três de Julho é uma data importante para mim. Nessa data, em 2002, falecia Tarquínio Hall. Além de ser um amigo, foi a pessoa mais ilustre que esta terra conheceu no campo da cultura. Como acontece sempre, também ele não foi profeta na sua terra nem santo da porta capaz de fazer milagres. A sua natural excentricidade era olhada com desdém pelo povo e a casa que deixou para museu e para preservar o seu espólio bibliográfico é, pura e simplesmente, desprezada. 
Em 2011, nesta data, lancei o meu primeiro livro. A “Quinta das Tulipas” nasceu no mesmo dia da Casa Museu Tarquínio Hall. Dia de felicidade para mim e para os meus verdadeiros amigos. Surpresa para muita gente que não me imaginava capaz de escrever um livro. Dia de raiva para alguns que tudo fizeram e fazem para me suplantar. O livro não é nenhum marco na literatura, nem nunca teve essas pretensões. Não me considero, de todo, um bom escritor. Nem me posso chamar escritor, visto que não vivo disso. A escrita nem é a minha primeira queda artística. Gosto de contar histórias e conto-as. Escrevo à minha maneira com gafes e atropelos gramaticais. Quem não gosta, não come. Se apesar da minha insignificância, ainda sou invejado, imaginem quanto vale essa gentinha.

domingo, 2 de julho de 2017

A PITA

AUTOR DESCONHECIDO
Pita é a fêmea do pito. Galináceos que ainda não são frangas, nem frangos e muito menos galinhas ou galos. Também podem ser pintas e pintos, embora o pinto tenha outro significado no Brasil. Em linguagem informal, consultada num dicionário, pita, significa menina jovem. Daqui, deduzo que haja meninas velhas. Teoricamente, pita é aquela menina entre os 12 e os 16 anos. Aos meninos dessa idade, não é costume chamar-lhes pitos, mas eu costumo dizer que são galitos a caminhar para pavões. Acontece que pito também tem outro significado e não é no Brasil. 
Debrucemo-nos sobre a pita, mas sem cair. A pita é um ser que tem tanto de gracioso, como de desconcertante. Um serão de uma pita, bem pode ser assim: Acaba de jantar, dá banho à barbie e deita-a a dormir. A seguir vai para um bar emborcar shots. Publica fotos exibindo a sensualidade que vai despontando, mas chora convulsivamente se algum galito lhe diz uma obscenidade. Afirmam que já são mulheres, desde que ninguém as trate como tal. Afirmam que ainda são crianças, desde que isso as livre de responsabilidades. Como conversar com uma pita? Temas infantis deixam-nas cheias de sono. Temas adultos, não entendem. Depois há a pita que tem um irmão mais velho que a leva para a noite. Grande e contagiante entusiasmo: yá, ca fixe. Vai ser uma noitada. Meia hora depois: ó mano… vamos para casa, que estou a cair com sono. 
Entre pitas e galitos há um sério problema. Elas crescem muito mais nesses primeiros anos de pitice. O menino fica a olhar para cima, para a amiga de infância, que lhe passou à frente uns 10 cm. Pior ainda, é que já não lhe ligam nenhuma. Já olham para os outros mais velhos com penteados estranhos e poses cinematográficas. 
Por laços familiares ou por afinidade de irmãs e filhas de amigos, tenho algumas amigas pitas. Na minha infinita paciência, consigo compreender os seus desvaneios e consigo não ser muito ruim de aturar. Note-se que para elas, ter mais de 30 anos, é ser velho. Ter mais de 50, já é pertencer à classe dos fosseis. Ainda assim, a comunicação é possível com base na tolerância e no respeito mutuo. 
Na verdade, é uma fase maravilhosa da vida. É importante saber deixar a infância, mantendo os sãos princípios, se os houver. É preciso manter a capacidade de sonhar. É preciso crescer com dignidade, cultivando a amizade e o respeito.