quinta-feira, 29 de junho de 2017

PRIMEIRO DIA DE ESCOLA OU A RAZÃO DE EU GOSTAR DE MULHERES VESTIDAS DE BRANCO

Já há algum tempo que me andavam a ameaçar. Era só um ligeiro
descarrilamento comportamental para vir logo o susto: deixa-te ir para a escola que vais ver. Depois vinha logo a história do terrível professor que batia nas mãos dos alunos com uma régua de madeira. Podia lá ser? Um par de estalos bem assentes com esmero e dedicação já me tinha acontecido, mas levar com uma tábua nas mãos não era coisa que os meus seis anos imaginassem. Finalmente chegou o dia. Tiraram-me da cama mais cedo. Um banho, orelhas bem lavadas, um pequeno-almoço, e uma bata azul com as minhas iniciais bordadas no bolso. Deram-me uma pasta com uma lousa, um giz, um caderno com a imagem de um jovem da mocidade portuguesa e um lápis. Lá vou a caminho da escola assumindo ares de pessoa importante quando passava por alguém. Afinal já não era nenhuma criança. Até já andava na escola. A cena das reguadas é que assustava, mas se os outros as levavam e sobreviviam, eu não seria diferente. Entrei na sala de aula. Lá estavam os outros miúdos da aldeia também com cara de caso. As miúdas ficavam na outra sala e tinham outro espaço para brincar separado por arame farpado. O professor entrou de rompante. Levantaram-se todos e eu fiz o mesmo. Ouviu-se um coro que não tive tempo de acompanhar.

- Bom dia senhor professor. 

O visado respondeu.

- Bom dia meninos. 

Os meninos da segunda, terceira e quarta classe rezaram o pai-nosso e cantaram o Hino Nacional. Eu e os outros da primeira classe ficámos a conhecer aquele que seria um ritual diário. Agora, a bem com Deus e com a Pátria, era tempo de começar a aula. O professor, careca de óculos grossos, não era assim tão ameaçador. Tinha mais medo daqueles senhores dos retratos que guardavam o quadro negro. Imaginava que fossem eles que a qualquer momento entrassem na sala de régua em punho. Aquele velho de ar sinistro e o outro vestido de militar e bigode farfalhudo não me inspiravam confiança. Tranquilizava-me mais a imagem de Cristo ao meio dos fulanos, mas de mãos e pés pregados também não seria grande defesa. Só mais tarde vim a saber que se tratava do Dr. António de Oliveira Salazar, Presidente do Conselho de Ministros e do Marechal António Óscar de Fragoso Carmona, Presidente da Republica. Também vim a saber que, em 1972, já deviam ter sido substituídos pelo Dr. Marcelo José das Neves Alves Caetano e pelo Almirante Américo Deus Rodrigues Thomaz respetivamente, mas a podridão do regime já não dava para mais. Também só em abril de 1974 fiquei a saber que tinha boas razões para temer esses filhos da puta todos, apesar das mães não terem culpa.

Afinal o professor, careca de óculos, era mais ameaçador do que parecia. Abriu a gaveta e tirou uma tábua em mogno. Mostrou-a a nós que eramos novos alunos.

- Quem não se porta bem e quem não estuda leva com isto nas mãozinhas. 

Afinal a régua existia mesmo! Não era só ameaça. Felizmente era só para quem se portava mal e para quem não estudava. Eu não tinha nada a recear. O professor escreveu as letras a, e, i, o, u no quadro negro e mandou copiar. Aquilo saiu-me tão mal, tão gatafunho que achei melhor arrancar a folha ao caderno e começar de novo. Amarfanhei o papel, levantei-me e fui pôr no caixote do lixo. Voltava para trás quando o professor me chamou.

- Menino, venha cá.

- Sim senhor professor. 

- Como se chama?

- Paulo.

Horror dos horrores. O professor abriu a gaveta e tirou a pesada régua. 

- Estenda a mão.

Assim fiz. Fechei os olhos, mas vi mentalmente a ferramenta de tortura elevar-se e cair com velocidade na minha pequena mão. Uma dor intensa. Mais intensa ficou com os risos de escárnio dos meus colegas.

- É para aprender que nunca mais se pode levantar sem me pedir licença.

Afinal havia muita coisa a saber sobre o conceito de “portar-se bem”. Chegou a hora do recreio e a dor da mão e da alma ficou esquecida. Mesmo em dez minutos ainda dava para encher um saco de papeis e jogar uma futebolada. Eu não joguei. Ninguém me escolheu para fazer parte da equipa. Fui ver o que se passava para além do arame farpado. As meninas, também em intervalo, saltavam á corda e jogavam ao lenço. De batas brancas pareciam pombinhas a saltitar. Deitei-me e rastejei por baixo do arame farpado. Ainda fiquei preso, mas passei. Queria brincar com as pombinhas brancas, mas não tive sorte. Logo soou o alarme. Um colega, talvez invejoso, gritou bem alto.

- O Vítor Paulo anda no recreio das meninas!

No regresso à sala de aula tive direito a um corretivo moralista e a uma segunda dose de régua. Doloroso saldo para o primeiro dia de aulas, mas acredito que foi nesse dia que fiquei a gostar de mulheres vestidas de branco.

ÁRVORE CAÍDA

Aconteceu algo insólito. Não será assim tão insólito, mas será um episódio, talvez único na vida. Estava à janela da Biblioteca Museu Tarquínio Hall a satisfazer o meu sistema nervoso de nicotina e a apreciar a paisagem. Estava a olhar para uma ameixoeira quando o inesperado aconteceu. A árvore, simplesmente caiu. Um estalo seco e pimba. Ameixoeira no chão partida pelo tronco a meio metro do solo. Terá sido o peso dos frutos e a idade. São curiosas as árvores. A maior parte morre de pé. Outras fazem isto. Desenvolvem mais frutos do que conseguem aguentar. Será um erro da natureza? A natureza, no seu caminho para o perfeito equilíbrio, precisa de cometer erros. Nós também, mas é preciso aprendermos com os erros. É precisamente aí que costumamos errar. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

COMBOIOS

Tenho uma certa paixão por comboios. Não sei explicar porquê, mas é algo que vem de longe. Na minha infância e adolescência, ia muitas vezes a Lisboa e o meio de transporte era o comboio. Entrava com a minha mãe no Carregal do Sal. Ela procurava sempre um lugar para mim à janela. Depois era a viagem maravilhosa. Mortágua onde o povo matou o juiz. Pampilhosa, onde se podia sair do comboio e comer sopa no restaurante da estação. Coimbra, Alfarelos, Entroncamento… Braço de Prata significava que a viagem estava a acabar. Finalmente Santa Apolónia. Fim da linha. Recordo a casa que os meus tios e padrinhos tinham em Santa Comba Dão, mesmo em frente à estação do Vimieiro. Era só atravessar a estrada e passar por ali o dia. O altifalante anunciava os comboios que aí vinham. Era o rápido que parava. Era o foguete que atravessava a estação a alta velocidade sem parar. Era o regional cheio de gente cansada. Era o comboio de mercadorias com carruagens em madeira castanha. Era o sud carregado de emigrantes. Mais interessante era o comboio de Viseu. Sabia-se que vinha a chegar quando se via uma coluna de fumo negro e um vibrante apito. A velha locomotiva a vapor entrava na estação com um festival de sons estranhos. Tenho saudades de andar de comboio. Um dia destes faço isso. Um dia destes…

CINEMA

CINEMA PATHÉ - RUA FRANCISCO SANCHES - LISBOA
Apagam-se as luzes, ilumina-se a tela. Surgem imagens vivas. Imagens feitas de luz e sombra. Eis a magia do cinema. Teria uns oito anos quando fui pela primeira vez ao cinema. Foi na Brandoa, Concelho da Amadora. O cinema era um barracão com cadeiras metálicas de esplanada unidas com arames. O filme nem era filme. Era um documentário sobre a vida de Eusébio da Silva Ferreira. Isso não interessava. Queria lá saber do filme. Eu queria mesmo, era chegar à minha terra e dizer aos meus amigos que tinha ido ao cinema. Queria ver a cara de inveja por eu ter feito algo que era inatingível para eles. A maioria nunca tinha ido a Lisboa, nem nunca tinha visto o mar. Apesar de tudo, tive uma infância privilegiada. Ir à praia, ir a Lisboa, ir ao cinema, não era para todos, assim como não era para todos comer pão com Tulicreme e iogurtes Veneza. O primeiro filme, propriamente dito, que vi em cinema foi o "Zorro" no Cinema Pathé. 


Fui ao cinema com um primo que vivia na Brandoa. Aí passava a maior parte das minhas férias de Verão. As crianças da rua juntavam-se todas. Brincávamos na rua ou em casa de uns e outros. Os mais velhos tomavam conta dos mais novos e eramos felizes. Que será feito dessas crianças? Será que ainda se lembram do sobrinho preferido da Dona Francelina que vinha para ali no verão? Talvez sim ou talvez não. Afinal já passaram quarenta anos.

BEM-VINDOS

Novo blogue, mas sem nada de novo. Talvez um pouco mais intimista, mais voltado para mim. A minha visão do mundo, acontecimentos, desabafos e simples divagações. O título é a minha morada. Afinal é na minha casa que eu mais penso e produzo.


Sejam bem-vindos…