segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A QUINTA DAS TULIPAS - CAPÍTULO 02 - O POLÍCIA

          Ainda não eram nove horas da manhã quando o potente BMW entrou pelo portão da Quinta das Tulipas, rolou pelo caminho de terra batida e parou junto à casa. De dentro da viatura saiu um homem na casa dos cinquenta anos. Saiu do carro mirando a bela casa. Retirou os óculos escuros e sorriu para a varanda de onde Afonso lhe acenava.
- Martinho! Eu sabia que tu vinhas.
Usava um fato bege e tinha aspecto de homem duro apesar da elegância de gestos e da forma de vestir. Subiu as escadas com a mão estendida.
- Meu caro Afonso. Não passa um ano por ti.
- Desculpa chatear-te ao sábado, mas trata-se de uma situação delicada.
- Não chateias nada. É sempre bom vir à Quinta da Tulipas. Além disso somos amigos.
- Ficas para almoçar?
- Claro. Eu podia lá perder os cozinhados da Florinda.
- Assim temos tempo para conversar. 
Inês estava na varanda esperando pela Sofia quando os dois homens passaram por ela. Martinho olhou-a demoradamente, o que a deixou naturalmente inquieta e intimidada. Afonso pigarreou.
- Inês, diz à minha irmã que eu tenho muito que falar com o Doutor Martinho. Não quero ser incomodado por ninguém.
- Esteja descansado Senhor Afonso.
- Tu também não vás para longe porque também temos que falar. Depois chamo-te.
- Vá biene signor dottore.
Arriscou chamar Doutor ao seu anfitrião. Foi um desafio àquele mistério dele não o querer ser. Eles seguiram em frente, mas Afonso parou de repente olhando para trás. Falou como que escolhendo as palavras.
- Inês… nunca mais… me chames… Doutor.
- Mi scusi.
Seguiram caminho e desapareceram pela porta que dá acesso ao escritório, não sem antes deixarem escapar uma conversa que a deixou a pensar.
- Afonso! Ouvi bem? Chamaste-lhe “Inês”!?
- Foi o nome que lhe dei enquanto não se lembra do dela.
- Com tantos nomes possíveis escolheste Inês!?
- O que é que tem? É um nome como outro qualquer.
- Não é bem assim, Afonso. Ambos sabemos que não é bem assim.
Inês ficou encostada à coluna da varanda com cara de pato. Que raio tinha o seu novo nome? Recordou a reacção da Dona Joaninha quando o irmão lhe aplicou esse nome pela primeira vez. Talvez no passado tenha havido uma Inês de má ou de boa memória. Certo é que aquele nome causava estranheza a todos. Era um mistério que gostava de desvendar embora não se atrevesse a questionar. Então aquele era o tal Martinho. O tal amigo que vinha ajudar. Mas ajudar como?
Correu a dar o recado. Entrou na cozinha. A Florinda preparava o pequeno-almoço. A Dona Joaninha acendia uma vela a um santo que havia num pequeno oratório junto à lareira. O Caramelo ronronava junto ao lume.  
- Dona Joaninha. Tenho um recado do Senhor Afonso. Ele diz que vai estar com o tal amigo chamado Martinho no escritório e não quer ser incomodado.
- Está cá o Doutor Martinho!? Hoje ao sábado!? Talvez já haja informações sobre ti. Ele é da polícia.
Inês estremeceu. O senhor Afonso tinha chamado a polícia!? A sua inquietação não passou despercebida à boa senhora.
- O Doutor Martinho é um velho amigo da família. É inspector da Polícia Judiciária e é a pessoa indicada para te ajudar.
- Será que anda alguém à minha procura?
- Certamente que sim, menina. É muito jovem, deve ter pais, amigas, colegas de escola e até mesmo um namorado. De certeza que já deram pela sua falta.
- Não sei. Não me lembro di niente.
- Não se apoquente. Vamos comer alguma coisa.
A Florinda pôs a mesa com pão, manteiga, queijo, marmelada, fruta, café e leite. Cuidava de empurrar tudo para a desditosa jovem.
- Coma menina. Olhe que o corpo não tem raízes na terra. Não tenha medo de engordar. Olhe que gordura é formosura. Eu fui sempre bem cheiinha e o meu Alfredo gostou de mim na mesma.
- O seu marido não vem comer?
- Esse, ainda não havia sol, já estava a andar para o campo. Lá é que ele gosta de petiscar. Tenho que arrancar o cu da cama cedo por causa do farnel para ele. Não é homem que se dê com ninguém. É um bicho-do-mato que ali anda. Tirando o domingo de Páscoa, nunca põe os pés nesta casa. Por falar nisso, já é para a semana. Temos muitos bolos para fazer. Será que o Padre Alberto ainda se atreve a dar a cruz a beijar?
- Deus dá-lhe forças.
- Ó Dona Joaninha olhe que Deus também há-de ter mais que fazer.
A boa senhora benzeu-se em jeito de penitência pelas palavras de Florinda. Sofia chegou nesse momento com um enorme saco de roupas para Inês. A mãe aproveitou para estender o repertório sobre a alimentação com intenção de admoestar a filha.
- A menina alimente-se. Não queira ser como essa minha filha que não come nada de jeito. É o que aprendem nas televisões a ver aquelas pindéricas das passarelas.
Sofia acolhia os comentários da mãe com um sorriso e um encolher de ombros muito característico. A Dona Joaninha benzia-se repetidamente. Apesar da idade e da estrema religiosidade era muito mais tolerante e aberta a novas ideias, comportamentos e concepções do mundo moderno.
Inês continuava em silêncio. Alem de não perceber nada daquela história do padre e da cruz para beijar, continuava preocupada e ansiosa por saber o que se passava no escritório do Doutor Afonso. Ou melhor, do Senhor Afonso, já que ele não quer o tratamento de “Doutor”. Sentia uma forte vontade de ir bater àquela porta, mas considerava indelicado tal procedimento. Era preciso pensar no futuro, visto que o presente é confuso e o passado estava, por enquanto, apagado.
- Será que a minha memória não volta, Dona Joaninha?
- Claro que sim menina. O Afonso diz que é só uma mazela do estado de choque em que a menina esteve.
- Tenham paciência comigo. Espero vir a retribuir-vos tudo isto.
- Não pense nisso. Esteja à vontade.
Foi então que a Sofia teve uma saída que mesmo a brincar lhe deu uma ideia.
- Se levares uma pancada na cabeça ficas logo boa.
A Dona Joaninha benzeu-se horrorizada.
- Credo Sofia! Isso só acontece nos filmes.
Florinda não podia deixar escapar a deixa.
- Pois. É o que aprendem nas televisões.
Inês pensou que talvez Sofia tivesse alguma razão. Não com a ideia da pancada na cabeça, mas se fosse confrontada com algo do passado, talvez a mente despertasse. Agora o que mais a preocupava era mesmo o que se passava atrás da porta do escritório. Será que a conversa iria durar muito? Que notícias teriam para ela? Em que pilares estava assente a sua vida? Teria uma família e um bando de amigos a percorrer Seca e Meca à sua procura? Será que tinha um namorado aflito com o seu desaparecimento? Ou será que era uma solitária abandonada que levou sumiço e ninguém deu conta?
Terminou o pequeno-almoço, fez uma festa ao Caramelo e foi com a Sofia ao seu quarto ver o guarda-roupa que ela lhe emprestou. Sofia pensou em tudo. Roupa interior, t-shirt’s, calças, camisolas, dois vestidos e até um fabuloso conjunto de top e mini-saia de cor roxa, tanto do agrado de Inês e que ela se apressou a vestir. Sofia nem sequer se esqueceu dos pensos para aqueles dias.
- És uma querida. Parece impossível que não tenhas um namorado. Será que os homens andam cegos!?
- Bem, andam dois atrás de mim, mas não gosto de nenhum deles.
- Porquê? São assim tão feios?
- O Chico é bom rapaz, mas só toma banho de quinze em quinze dias. O Nuno é burro como uma porta. Uma vez disse-lhe que nas cesarianas os bebés são tirados pelas costas e ele acreditou.
- Nem acredito. Que burro!
- Ainda há melhor. Ele estava convencido de que tuberculose é uma doença provocada pelos tubérculos. Chegou a andar uns tempos sem comer batatas, nem nabos, nem cenouras.
Foi um fartote de rir para as duas amigas. Entre elas estava a despertar uma intensa amizade. Sofia, a pedido de Inês, levou-a a conhecer o Carlitos. Ela queria saber quem era o herói que a salvou sabe-se lá de quê. Para irem para a rua passaram junto à porta do escritório. Inês abrandou o passo e tentou ouvir alguma coisa. A porta era sólida, não distinguiu uma única palavra. A Sofia apercebeu-se.
- Não estejas assim. Eles têm que pôr a conversa em dia e depois devem dizer alguma coisa.
- Estou ansiosa.
- Sim, mas agora vamos lá ver o Carlitos. 
Encontram-no a tratar das galinhas, dos patos e dos perus. Era um jovem de vinte e cinco anos, mas com a candura de uma criança. Cabelos encaracolados, olhos expressivos e sempre um sorriso nos lábios. Nasceu surdo-mudo.
- Vive feliz no seu mundo de silêncio.
 Dizia a Dona Joaninha.
- Pelo menos não ouve as baboseiras do mundo.
Rematava a Florinda.
Quando viu as duas raparigas, ficou visivelmente intimidado, não por Sofia que conhecia desde o colo, mas por aquela nova moradora que tinha encontrado perto da morte à beira do lago. As galinhas esvoaçavam à volta dele. A Sofia explicou, por gestos, que Inês estava bem e que estava muito agradecida. Olhou para ela sorrindo. Inês não sabia que era possível haver tanta alegria espelhada num olhar. Estendeu-lhe a mão. Ele pegou-lhe com uma delicadeza surpreendente. Ela depositou-lhe um beijo no rosto. Ele ficou um pouco embaraçado, mas reagiu prontamente. Foi com grande surpresa que o viram correr até um canteiro de roseiras e colher uma bela rosa de cor púrpura. Entregou-a a Inês com um largo sorriso. Ela aceitou, colocou-a ao peito, e voltou a ver a esplendorosa imagem da felicidade estampada naqueles olhos verdes.
- Apesar de não ter memória acredito que foi o mais belo presente que recebi em toda a minha vida. Como é que é possível que esta quinta seja só habitada por gente boa? Terei morrido e estarei no céu?
Carlitos ficou comovido. Tinha percebido as palavras de Inês. Sabia ler nos lábios muito bem. Na adolescência foi internado numa escola paga por Afonso. Também conhecia a fundo a linguagem gestual.
Inês estava ainda a admirar a rosa do Carlitos quando ouviu a voz estridente da Florinda.
- Ó menina Inês!
Olhou para cima. Lá estava a Florinda debruçada na varanda.
- Ó menina Inês venha cá que o Doutor Martinho quer falar consigo.
Olhou para a Sofia com o coração aos pulos. Ela sorriu.
- Vai lá parva. Estás à espera de quê?
Correu escadas acima. Que revelações estariam à sua espera? Em breve saberia.

Inês entrou no escritório. O ar estava pesado com o fumo dos charutos que os dois homens fumavam. Era uma sala não muito grande, mas luxuosamente mobilada.  
- Entra miúda.
Afonso estava sentado atrás de uma pesada secretária atafulhada de papéis. A organização não era seu apanágio e também não deixava que ninguém mexesse nas suas coisas, nem mesmo para arrumar.
- Vens muito linda! Fica-te muito bem a rosa ao peito.
- Foi o Carlitos que ma ofereceu.
- O Carlitos!? Esse rapaz anda a ficar atiradiço!
Inês ficou sem jeito. O Doutor Martinho estava enterrado num sofá. Ergueu-se um pouco e pigarreou.
- A menina Inês importa-se de responder a umas perguntas?
- Espera Martinho. Faltam as apresentações. Inês, este é o Doutor Martinho, inspector da Polícia Judiciária.
- Prazer.
Sentou-se numa cadeira de verga. Estava um pouco acanhada por estar em frente a um polícia. Ele fitou-a como que a tentar ler os seus pensamentos.
- A menina Inês é italiana?
- Não sei. Parece que falo bem as duas línguas.  
- Como se sente fisicamente?
- Um pouco dorida, mas já estou bastante melhor.
- E psicologicamente?
- Muito confusa. Não sei quem sou nem de onde venho. Sei que fui agredida, mas não sei por quem. É horrível Senhor Doutor.
- Não sente alguma ansiedade? Algum desejo em particular?
- Só o desejo e a ânsia de achar respostas para a minha situação.
- Não me referia a isso.
- Não entendo.
- Por exemplo: Não tem vontade de fumar um cigarro?
- Não. Seria incapaz. Odeio fumo.
Os dois homens apressaram-se a apagar os charutos. Pouco adiantou visto que a sala já estava alagada.
- E uma cerveja ou uma vodka? E um charro?
- Que horror! Por quem me toma?
Afonso deu uma palmada na mesa e levantou a voz.
- Martinho! Que raio de conversa é essa!? Pedi-te para seres brando com a menina. Pensas que estás a interrogar algum criminoso?
- Desculpem os dois, mas é necessário saber tanto quanto possível. Todos os pormenores são importantes.
- Não vês que a menina está sem memória?
- Sim, mas sabes bem que as dependências físicas e psicológicas como sejam os vícios não se perdem quando se perde a memória.
- Pode continuar. Estou disposta a colaborar tanto quanto possível para resolver a minha situação, mas não me parece que seja uma drogada ou uma bêbeda.
- Menina, agora preciso de lhe fazer uma pergunta um pouco embaraçosa.
- Esteja à vontade.
- Apesar de estar sem memória acha que foi violada?
- Não. Isso não. Eu sei que não, eu sinto que não.
- Então o móbil do crime deve ter sido o furto ou o tráfico de mulheres para a prostituição em Espanha. Andamos no encalço de uma rede dessas. Ainda assim creio que foi mais um golpe de Multibanco. A menina deve ter resistido ou reconhecido alguém e eles tentaram-se livrar de si.
Afonso fez um gesto de impaciência.
- Ó Martinho, não achas que estás a atirar palpites sem qualquer consistência?
- Estou apenas a pensar alto e analisar todas as hipóteses. Menina, só preciso de mais uma coisa. Mostre-me os seus braços.
Afonso protestou.
- Lá estás tu com a mania da droga. És mesmo obcecado em drogados. Para ti todos os jovens são drogados.
Inês mostrou os braços a Martinho. Ele analisou-os com todo o cuidado. Por fim declarou.
- Estão limpos. Estava enganado e preciso de pedir desculpa a ambos.
Afonso fez um gesto de enfado.
- Que esperavas encontrar?
- Afonso, a verdade é que esperava chegar aqui, fazer uma detenção e resolver um caso.
- És capaz de explicar melhor?
- Quando me telefonaste a contar o sucedido com a miúda, pensei que se tratava de uma traficante que persigo há muito. Ela também desapareceu e pensei que viesse aqui parar.
Inês ficou um pouco chocada. Pensamentos diversos atormentavam-lhe a alma. Era a sua vez de reagir e de começar a fazer perguntas.
- Doutor Martinho, como sabe que não sou eu essa criminosa?
- A descrição física que tenho dela é bastante coincidente com seu aspecto, à excepção da cor dos cabelos, mas isso é fácil de modificar.
- Então!?
- Ela fuma convulsivamente, bebe bebidas fortes e tem os braços na última miséria das agulhas.
- E como sabe que desapareceu? Se anda à procura dela, não sabe onde ela possa estar.
- Sabíamos onde ela morava. Fizemos uma rusga ao bairro dela e só encontrámos um apartamento abandonado à pressa. Chegámos tarde. Estamos a vigiar de dia e noite, mas não há sinal.
- Que vai fazer comigo?
- É melhor continuar aqui em casa do Afonso. Eu vou investigar e creio que em breve teremos novidades. Agora pode-se retirar se assim o desejar.
Inês agradeceu e ia a sair quando o Doutor Martinho a voltou a chamar.
- A menina já esteve em Itália?
- Não faço ideia, mas parece que falo como eles. Se não estive em Itália já estive com italianos. A não ser que seja alguma doença rara nas cordas vocais. Talvez uma “italianite aguda”.
Os dois homens entreolharam-se e soltaram uma estrídula gargalhada. Afonso atirou com um lápis a Martinho.
- Toma lá inspector e aponta essa. É para veres que nesta casa só há gente inteligente. Até mesmo quando caem do ninho.
Martinho, ainda a rir, despediu Inês.
- Pronto menina. Vá-se embora que já não quero mais nada consigo.
 Ela saiu e ao bater a porta, percebeu que os dois homens continuariam a falar dela. Bem gostaria de os ouvir, mas isso seria má educação. Será que eles saberiam mais alguma coisa sobre ela? De que ficariam a falar? – Será que pensam que eu sou a tal traficante? O pior de tudo é que podem ter razão. Sei lá quem sou. – Estes pensamentos aperreavam-na. Começava a ter medo da realidade. Da sua própria realidade. Pressentia que aqueles dois sabiam algo mais. Teve vontade de voltar atrás e fazer perguntas. Não teve coragem de ser indelicada. Tranquilizou-se um pouco quando viu a Sofia que a esperava com impaciência sentada na guarda da varanda.
- Então? Que novidades tens?
- Nada de especial. O Doutor Martinho vai investigar.
- Ânimo, amiga. Tudo se vai resolver.
- Só espero ter posses para pagar tudo isto.
- Estás em casa de gente abnegada. Até se ofendem se alguma vez quiseres pagar seja o que for. Quanto às tuas posses… a julgar pelas tuas roupas!
- As minhas roupas!? É vero. Esqueci-me completamente.
- Estão um bocado rotas, mas anda comigo que eu mostro-te.
Foram até uma sala de costura. Lá estavam num saco plástico: umas calças “Levi’s”, um top “Benetton” e roupa interior “Pierre Cardin”.
- Vês amiga. Tu só vestes altas marcas.
- Está tudo roto e sujo.
- A minha mãe quis lavar, a dona Joaninha quis deitar fora, eu não deixei.
- Porquê? Já nada presta.
- Pode servir para a polícia.
- Bem pensado, minha jovem. Vinha justamente à procura dessas roupas.
As duas amigas assustaram-se com a voz que irrompeu na sala sem qualquer aviso Era o Doutor Martinho que entrava na sala. Apressou-se a juntar a roupa e guardou-a numa caixa. Voltou-se para Inês, pensativo.
- Já agora, menina Inês. Quero dois ou três cabelos seus.
- É para recordação?
Gracejou.
- O nosso laboratório pode chegar a importantes conclusões.
Chegou-se a ela e com um rápido gesto arrancou-lhe dois cabelos. Teve um reflexo de dor, apesar da delicadeza da operação.
- Magoei-a?
- Não Senhor Doutor.
- Bem menina. Fique nesta casa até eu investigar a fundo. Espero dar-lhe novidades em breve.
- Fico ansiosa. Felizmente tenho a boa companhia da Sofia e o carinho de todos.
Despediu-se e foi-se embora. Pouco depois ouvia-se o potente motor do BMW a arrancar levando o homem que deixava esperança de descobrir quem ela era. Estranha missão de um polícia habituado a procurar pessoas desaparecidas. Agora era ao contrário; tinha uma aparecida e queria descobrir de onde é que desapareceu. Agora tinha fé que em breve iria encontrar o seu passado sumido do seu miolo cinzento e confuso.

domingo, 10 de setembro de 2017

A CIGANITA

Foto retirada da Internet. Autor desconhecido
Fui a um supermercado. Estacionei e fiquei ali à porta a satisfazer necessidades de nicotina. Junto à entrada andava uma miúda de etnia cigana a pedir uma moeda a quem entrava. Ninguém lhe dava nada. Qualquer pessoa podia muito bem argumentar que os pais recebiam subsídios, tinham negócios escuros e ainda mandavam a filha pedir. Talvez tivessem razão ou talvez não. Como se pode pintar logo a história de uma família olhando apenas para uma miúda morena de cabelos negros? Imaginei aquela menina vestida de roupas de marca a pedir ajuda para algo. Será que alguém passava a direito? Acabei o meu cigarro e dirigi-me à entrada. A miúda acercou-se de mim e pediu-me uma moeda. Olhei para os seus olhos escuros e suplicantes e não resisti. Dei-lhe um Euro. Um fulano que ia a sair, olhou para mim com ar reprovador. Mentalmente, mandei-o marrar num comboio de açúcar para ver se era doce. Entrei numa papelaria que há no supermercado e comprei uma raspadinha. Raspei e vi aparecer três pombas numa linha. Mais uma raspadela e lá estava o prémio de vinte Euros. Se acreditasse em algo divino, muito haveria para deduzir desta história. Certo é que, à saída, a miúda sorriu para mim com ar de cumplicidade.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A QUINTA DAS TULIPAS - CAPÍTULO 01 - QUEM SOU EU!?


Acordou em absoluto estado de confusão. Sabia que estava numa cama, sabia que tinha um tecto azul. Não sabia mais nada. Nem sequer sabia quem era, aliás, só sabia que era alguém porque tinha consciência de que existia. Todo o corpo lhe doía quando se tentava mexer. Levantou a cabeça, mas foi invadida por uma tontura que a fez tombar para trás. Parecia que alguém lhe tinha espetado um ferro aguçado na cabeça. Alguém sussurrou algumas palavras perto de si. Algumas palavras que lhe transmitiram segurança apesar do estado de confusão em que se sentia.
- Durma menina, durma mais um bocadinho. Precisa de descansar. 
O estado de exaustão em que se encontrava obrigou-a a fechar os olhos. Mesmo debatendo-se contra si própria acabou por adormecer. 

Sonhou, se é que se pode chamar sonho ao turbilhão de imagens que lhe acometeram a mente.
Estava a meio de um túnel e algo a perseguia. Tentava fugir, mas levantavam-se paredes à sua frente. Ficou encurralada. O seu perseguidor, que não conseguia ver, agarrou-a. Sentiu o seu peso que a esmagava e rasgava. Tentou gritar, mas não conseguiu. Sentiu-se liberta e quis fugir, mas achou-se à beira de um precipício. Quis desesperadamente agarrar-se a algo, mas tudo em que tocava transformava-se em cobras horríveis. Caiu. Nunca mais parava de cair. Silvas de espinhos aguçados rasgavam-lhe a roupa e a pele. Ouvia claramente gargalhadas de escárnio e palavras murmuradas em conspiração. Estava agora num lugar escuro, mas continuava a ouvir sons assustadores. Uma matilha de cães raivosos movia-se perto de si. Sentiu a sua fúria. Não foi capaz de gritar nem de fugir. Sentiu-se mergulhada em água gelada, tentou respirar, mas não conseguiu. Sentiu-se desfalecer até que um estrondo infernal a trouxe à realidade.    

Quando voltou a acordar viu o mesmo tecto azul, mas os raios de sol entravam agora pela enorme janela.
- Coitadinha. Estava a delirar.
Era outra vez aquela voz afectuosa e tranquilizante. Olhou com alguma dificuldade. Ao lado da cama estava sentada uma senhora idosa de lindos e meigos olhos verdes. As rugas que lhe sulcavam o rosto davam-lhe um delicado ar de extrema bondade. Segurava nas suas pequenas mãos uma chávena de chá. Sorriu para ela. Tinha um sorriso plácido e terno. 
- Beba este cházinho menina. Vai-lhe fazer bem.
- Dove mi trovo? Perché ho tanto dolore?
A senhora não percebeu patavina, mas continuou a tranquilizar a jovem rapariga.
- Descanse menina. Está em casa de boa gente. Deve ter sofrido muito, mas agora está bem e vai ficar boa num instante.
Sentou-se na cama com alguma dificuldade. Continuava a ter dores pelo corpo todo. Sentia os músculos doridos e uma terrível enxaqueca não a deixava pensar com clareza. Olhou em volta com estranheza. Nunca tinha visto aquele lugar. Não conhecia aquela senhora. Era incapaz de avaliar a situação.
- Beba menina. É camomila. Vai acalmá-la e dispô-la bem.
A senhora sorria docemente enquanto lhe estendia a chávena fumegante. Aceitou o chá com algumas reservas embora a senhora lhe inspirasse confiança.
- Beba devagarinho que está quente.
O aviso veio tarde demais. Ao primeiro gole queimou-se, engasgou-se e só não deixou cair a chávena do chá porque a senhora a segurou a tempo.
- Signora…
- Joana. Chamo-me Joana. E a menina?
- Io? ... Non lo so. Non so il mio nome. Non riesco a ricordare.
Apesar da língua desconhecida, a anciã compreendeu que a rapariga devia ter perdido a memória. Nem o nome sabia!
- Isso é agora que ainda está assustada. Precisa de descansar. Agora beba o cházinho.
Bebeu mais alguns goles. Tinha um sabor e um aroma agradável que a confortava. Estremeceu quando a pesada porta de madeira do enorme quarto se abriu de rompante. Surgiu um homem de aspecto austero. Devia estar na casa dos setenta anos. O cabelo grisalho tinha já algumas falhas na testa e na nuca. Um farto bigode em conjunto com as rugas que lhe sulcavam o rosto dava-lhe um ar robusto e circunspecto. Olhou para ela com ar inquiridor. Uma ruga nascia-lhe na testa e encovava-lhe os olhos. Permaneceu em silêncio perante o olhar confuso da rapariga até que, parecendo despertar, fez soar a sua voz cavada e altiva.   
- Então? A rapariga já acordou?
A velha senhora passou a mão pelo rosto à jovem e respondeu.
- Já está melhorzinha. Agora só precisa de descansar.
O homem sentou-se na cama cravando o seu olhar penetrante e inquisidor à assustada criatura. Ela continuava intimidada. Sentia-se frágil por não perceber nada da sua situação.
- Então menina. Como raio é que se meteu em tamanha trapalhada? O que é que lhe aconteceu? Para começar diga-me o seu nome?
- Il mio nome? Non so il mio nome...
- Você é italiana?
Ela ficou ainda mais confusa com aquela pergunta. Também sabia falar aquela língua. Compreendia bem o que eles diziam e conhecia os termos que devia usar, embora com mais dificuldade.
- Eu não sei meu nome! Eu não sei quem sou! Não sei onde estou nem de onde venho! É horrível.
- Afinal também fala português. Atravancado, mas fala.
Principiou a chorar. O homem levantou-se, virou costas e saiu exclamando entre dentes.
- Perdeu a memória. Não há nada a fazer por agora. Quando recuperar saberemos quem é a italiana. Vou telefonar ao Martinho.
Aquelas palavras deixaram-na ainda mais aflita. A velha senhora tentava tranquilizá-la.
- Beba mais um pouco de chá enquanto lhe vou buscar uma torradinha. Não se apoquente menina. Está em boa casa.
Aproximou-se mais do seu ouvido e sussurrou:
- O meu irmão tem a mania que é bruto, mas é só mania. É um coração de manteiga. Não lhe ligue. Ele vai falar com o Martinho.
- Quem é o Martinho?
- Um grande amigo que nos vai ajudar. Eu volto já.
Afastou-se e saiu. Era uma senhora baixinha e septuagenária. Andava um pouco encurvada pelo peso dos anos. O cabelo branco e as argolas em ouro nas orelhas davam-lhe um ar de fino trato, assim como os modos delicados.
Ficou sozinha. Estava deitada numa cama estilo “Luís XIV”. O quarto era amplo, mas da sua mobília constava apenas um roupeiro, uma pesada mezinha de cabeceira e um curioso baú, além da cama, é claro. Cobriam-na lençóis de linho e uma bela colcha de renda. Estava vestida com uma camisa de dormir dos princípios do século XX cheia de bordados feitos à mão e fitinhas de seda. Tudo isto cheirava a naftalina. Pela grande janela entravam exuberantes raios de sol que iluminavam o quarto dando tons acolhedores às paredes cor-de-rosa e ao tecto azul. Uma única e inquietante pergunta martelava o seu cérebro: Quem sou eu!?
A senhora baixinha voltou com um tabuleiro de onde exalava um agradável aroma a pão torrado.
- Vamos menina. Coma uma torradinha.
Devorou dois pães e bebericou mais uma chávena de chá. Sentiu-se mais animada apesar de todas as confusões e interrogações que lhe afogueavam o espírito. Ouviu passos para além da porta. A senhora também ouviu.
- Vem aí o meu irmão. Tal como já lhe disse, ele é um bocado rude mas é boa pessoa.
Entrou com um semblante menos carregado do que da primeira vez. Sentou-se na cama e agarrou-lhe na mão apertando-a um pouco. Inclinou-se ligeiramente.
- A menina já se sente melhor? Eu há pouco fui um bocado brusco consigo, mas fique descansada que está em segurança e faça de contas que esta é a sua casa.
- Il Signor chi è? Dove mi trovo?
- Tenha calma que tudo se explica. O meu nome é Afonso. Esta é a minha irmã Joana. Estamos na Quinta das Tulipas. Se chegar àquela janela poderá ver que estamos num sítio isolado com a Serra da Estrela no horizonte. A menina não se lembra de nada?
- Não sei de nada. Como vim aqui parar? Che cosa è successo?
- Primeiro temos que a baptizar. Eu em princípio baptizei-a como “Dama do Lago”, tal como nas histórias dos Cavaleiros da Távola Redonda. Mas, pensando melhor, Posso chamar-lhe Inês?
- Inês!? Suona bene per me.
Dona Joana ou Dona Joaninha como era conhecida estremeceu e benzeu-se. A jovem Inês não compreendeu, mas também não se preocupou com isso. Outras dúvidas lhe flagelavam a alma.
- Porquê “Dama do Lago”?
- Porque foi junto ao lago da nossa quinta que o Carlos a encontrou ontem à noite.
- Per favore mi dica tutto. Sono così spaventata. Chi è Carlos?
Afonso, bem como a irmã, tinham dificuldade com o italiano falado pela jovem. Entreolharam-se confusos.
- Se a menina sabe português, agradecia que evitasse o italiano.
Ela percebeu a situação.
- Desculpem. Vou tentar falar só em português.
- Sim. Peço-lhe que faça um esforço. Inglês, francês ou mesmo alemão, eu entendo. Italiano só compreendo pela semelhança do vocabulário.
A voz de Afonso era agora bastante amável. Nada tinha que ver com a severidade da primeira vez. 
Eu conto-lhe aquilo que sei. O Carlitos é meu empregado desde miúdo. É surdo-mudo de nascença, mas é um rapaz inteligente e trabalhador. Por vezes pede-me sempre para ir à aldeia jogar às cartas. É esse o seu único vício. Ontem, por volta da uma da manhã, veio-me acordar. Estava muito inquieto e assustado. Por gestos indicou-me o caminho até ao lago. Lá estava você desmaiada, amordaçada, roupas rasgadas e toda encharcada. Presumo que deve ter sido violentada e foi atirada ao lago. Agora já se lembra de alguma coisa?
Inês ouviu tudo com assombro. Esforçava o cérebro para que este lhe confirmasse aquela história, mas nada. Parecia que estava a ouvir uma notícia que nada tinha a ver com ela. Quando quis falar apenas conseguiu à terceira tentativa. Um nó feito de medo apertava-lhe a garganta.
- Isso é horrendo. Não me lembro de nada. Só sei que há pouco tive um pesadelo terrível. Acordei quando me senti dentro de água.
- Talvez haja relação. O subconsciente lembra-se de tudo. A perda de memória é, na maior parte dos casos, temporária. Em breve irá contar-nos a sua história. Tal como já lhe disse, está em boas mãos.
Dona Joaninha passou-lhe a mão pelos cabelos e exclamou em jeito de confidência:
- O meu irmão é médico.
Afonso levantou-se de rompante. Voltava a ser o mesmo homem áspero e arrogante. Cravou os olhos na irmã e vociferou:
- Fui, Joana. Fui médico. Nunca te esqueças disso.
Saiu apressado batendo com a porta. Inês preferiu não fazer comentários. A Dona Joaninha encolheu os ombros resignada.
- Ele é assim. Não ligue, menina.
- Acho que lhe devo a vida. É horrível não me lembrar de nada.
- Sossegue que a memória volta. Só precisa é de descansar. Já pedi à nossa empregada que lhe arranje umas roupas da filha dela que tem dezoito anos. Deve ser mais ou menos a sua idade.
- Nem a minha idade sei. Che cosa è successo ai miei vestiti?
A velha senhora apurou o ouvido.
- Diga menina.
- Desculpe senhora. Que aconteceu às minhas roupas?
- Estavam rasgadas, completamente inutilizadas. Tenho-as guardadas para a menina ver. Agora descanse menina. Tente dormir mais um bocadinho.
- Será difícil, senhora.
Era difícil, mas as palavras da Dona Joaninha pareciam ter efeito de calmante. Enquanto ela se afastava, recostou-se e sentiu que o sono tomava conta de dela. Aconchegou-se melhor. Apesar de tudo sentia-se invadida por um estranho estado de tranquilidade. Esforçou a memória, mas não conseguiu encontrar nada do passado. Parecia que o seu cérebro tinha criado um bloqueio a más recordações, mas também as boas não existiam. Acabou por adormecer. Só mais tarde soube que não eram as palavras da Dona Joaninha, mas sim o chá que tinha sedativos.

- Ai! Ela é tão linda.
Foi esta frase que a voltou a acordar não sabendo quanto tempo depois. Aos pés da cama estava uma mulher gorda de aspecto rude, mas com um rasgado sorriso deixando ver dois dentes desalinhados. Vestia uma velha bata azul e usava um chapéu de pano puído pelo tempo.
- Parece um anjo que aqui veio parar. Tome lá menina. São roupas pobres, mas estão lavadinhas. São da minha filha. Ela também é assim espirra-canivetes como todas as da idade dela.
A mulher estendia-lhe um saco cheio de roupa. A todo custo tentou agradecer por entre a longa e complicada dissertação sobre uma caterva de temas.
- Esta juventude não come para não cagar. Querem ser elegantes.
-  Grazie per i vestiti Signora.
Conseguiu balbuciar. Ela fingiu não ouvir e continuou com o discurso.
- No meu tempo queria comer e não havia. Era só fome e porrada. Agora estragam mais do que o que comem. Assim nem força têm para trabalhar. Mas ó menina! Você é tão linda. Experimente lá as roupas da minha Sofia.
Vestiu umas jeans que lhe serviram muito bem e uma t-shirt curta, mas um pouco larga. Calçou umas sapatilhas Adidas em óptimo estado. Enquanto se vestia pôde ver melhor as inúmeras contusões de mau aspecto que tinha um pouco pelo corpo todo. De facto tinha sido mal tratada. Felizmente não tinha nenhum osso partido nem nenhum ferimento preocupante. A sua benfeitora desviava os olhos desses danos enquanto desenfiava mais uma garrulice sobre as roupas modernas.
- No meu tempo não havia nada disto. Havia de ser lindo andar aí de umbigo à mostra. É o que aprendem nas televisões.
Apesar do seu estado e da sua situação, Inês, não pôde deixar de se rir. A Dona Joaninha benzia-se com o desfiado de observações. Certamente era uma mulher arreigada à religião. O seu sorriso levou a que as duas mulheres se regozijassem. A Dona Joaninha reagiu de pronto.
- A menina já se ri!? Temos mulher.
A outra mulher avançou abraçando-a de tal forma que quase a sufocou.
- São as minhas doidices que a fazem rir. As orações da Dona Joaninha, a alegria e uns caldos daqui da Florinda vão pôr a menina rija como o aço.
De repente voltou a tomar consciência da sua posição. Aqui estava numa casa de gente estranha. Gente amistosa, mas estranha. Uma velhota religiosa, um velho médico que desistiu da profissão e agora esta mulher carinhosa e extremamente divertida. Sabia que foi violentada, não sabia por quem. Também não sabia quem era, de onde vinha, quem era a sua família, quem eram os seus amigos, que fazia na vida, quantos anos tinha. Quando tentava recordar-se de algo sentia uma dor de cabeça e uma sensação de agonia e de medo. – Será que a minha memória vai voltar? Será que anda alguém à minha procura? Será que alguém deu pela minha falta? Quem? Onde? Quando? O quê? – Tudo isto a deprimia e acabou por deixar escapar um suspiro que não passou despercebido àquelas boas mulheres.
- A menina não fique assim. Olhe, está um dia lindo, quer dar um passeio pela quinta? A minha filha mostra-lhe tudo.
Dizendo isto e antes que a atordoada jovem pudesse replicar, foi à janela e chamou a filha.
- Ó Sofia. Ó Sofia anda cá caraças. Deves ter os ouvidos atafulhados da cera que fazes. Nunca me ouves à primeira.              
Pouco depois apareceu a Sofia um pouco ofegante.
- Credo mãe! É preciso essa gritaria? De certeza que a ouviram em Lisboa! Porque é que tem que ser assim?
- Porque tu és “mula”. Só ouves o que te convém.
 Inês sorria com o espalhafato de ambas. Embora não soubesse quantos anos tinha viu logo que a Sofia era da sua idade. Com dezoito anos acabados de fazer, era uma bela rapariga de olhos amendoados, cabelos louros e lábios finos. Parecia impossível que aquela criatura elegante e delicada fosse filha da Florinda. Parecia ainda mais impossível que fosse filha do Alfredo, marido dela. Era um sujeito atarracado de feições rudes. Onde teria herdado ela aqueles cabelos de ouro fino? O Alfredo dizia que uma filha assim era uma dádiva dos céus, um anjo enviado por Deus. Florinda não achava nada disso, principalmente quando se recordava do alto, espadaúdo e louro dinamarquês que há dezanove anos atrás andou por aquelas paragens a estudar espécies raras da flora da região e a aproveitar os favores das fogosas raparigas da terra. Tudo aconteceu depressa e bem na adega da quinta. Já nesse tempo Alfredo e Florinda eram empregados da Quinta das Tulipas. Namoriscavam timidamente às escondidas. Menos timidamente quando ela ia ter com ele na calada da noite ao celeiro. Quando ficou grávida foi lavada em lágrimas contar ao bom Alfredo. Ele ergueu as mãos para o céu e casou com ela daí a quinze dias. Depois nasceu a Sofia, filha de ambos, apesar do ADN nórdico. A mesma Sofia que agora olhava aquela jovem confusa vinda de Itália, do espaço, ou sabe-se lá de onde.
- Queres conhecer a quinta? Podes vir comigo. Eu mostro-te tudo.
A voz de Sofia condizia com o resto. Era delicada e melodiosa.
- Sì, se non fastidio.
Sofia sorriu. Um sorriso fresco e belo que lhe desenhava duas covinhas no rosto. Florinda só agora reparava no idioma estrangeiro de Inês.
- Ó menina, eu não sei que algaraviada é essa que a menina fala, mas a gente entende-se de qualquer maneira. O Carlitos nem diz nada e eu entendo.
Sofia resolve atalhar. 
- Não incomodas nada. Vamos embora. Deixa lá as velhas, senão ainda ficas maluca.
Dona Joaninha benzeu-se. Florinda espetou as mãos na cintura enquanto vociferava.
- Olha lá! Ó minha reles. Por acaso esta velha não é a tua mãe que te pariu e te criou com todas as paparocas? Pelo menos vê lá se tens respeito pela dona Joaninha que é uma senhora de “dom” e de “inho”.
Inês acabou de se vestir e olhou o espelho. Até a sua imagem era estranha para ela. Era também bonita, mas diferente de Sofia. Tinha a frescura natural da adolescência. O cabelo negro e liso abatia-se sobre os olhos cor de mel dando uma graça peculiar à testa alta reveladora de inteligência. O nariz empinado aliado a um sorriso safado dava-lhe um ar atrevido e encantador. As roupas de Sofia, apesar de um pouco largas, adornavam graciosamente a sua airosa figura.
  Sofia agarrou Inês por um braço e levou-a por um corredor comprido enquanto a Florinda continuava com o arejo.
- São umas doidivanas, umas estoura-vergas, umas sem vergonhas. É o que aprendem nas televisões. Olhe lá. Ó Dona Joaninha, a rapariga é brasileira ou espanhola?
- Porque dizes isso?
- Ela fala assim a modos que a cantar!
- Fala italiano, mas também fala português. Talvez seja emigrante ou filha de emigrantes.
- Não andou para aí dar uma novela com brasileiros a falar italiano? Há-de ver que é tão portuguesa como nós. Bem digo eu. É o que aprendem nas televisões. 
Florinda praguejava contra a televisão, apesar de ser a única telespectadora daquela casa. Sofia preferia a Internet, Alfredo só conhecia três actividades: trabalhar, comer e dormir. Dona Joaninha passava o tempo em orações e Afonso tinha uma opinião particular sobre o assunto – a televisão é como os fios das marionetas. É com ela que os poderosos dominam a vontade do povo. Dizia ele quando lhe aconselhavam a ver um filme ou outro qualquer programa.  
Ao fundo do corredor havia uma porta que Sofia abriu com dificuldade. Saíram para uma varanda de granito e o espectáculo que se abriu aos seus olhos deixou Inês extasiada. A casa da quinta era um belo solar setecentista totalmente construído em granito. Uma enorme varanda coberta, com a guarda em cantaria dava para um frondoso jardim saído do mais belo postal ilustrado ou de um qualquer filme fantástico. Ficava no meio de uma grande quinta cheia de terrenos cultivados, árvores de fruto e um pequeno bosque. Ao fundo, junto à estrada e ao portão de entrada, havia um belo lago. Era assim a Quinta da Tulipas. 
- Não ligues à minha mãe. Ela é bota-de-elástico, mas é boa pessoa.
 - Non so come si paga tanti favori.
- És italiana?
- Ai. Desculpa. Também falo português, mas às vezes esqueço-me.
Estava um belo dia de primavera. Desceram a escadaria granítica. Caminharam por entre labirintos de alecrim. O sol fazia brilhar algumas gotas de orvalho nas roseiras.
- É verdade que não te lembras de nada!?
 - É vero, é horrível. Só sei que acordei nesta casa e que tenho o corpo dorido.
De repente, ao darem a volta a um limoeiro, eis que surge um enorme cão com aspecto feroz. Inês encolheu-se toda com o pânico de tal aparição. Sofia tranquilizou-a enquanto dava ordens severas ao extraordinário animal.
- Não tenhas medo. Isto é mais corpo do que alma.
- É enorme e não me conhece.
- Quieto Cometa. Ela é amiga.
O corpulento animal pareceu entender. Ficou calmo, de olhos meigos e veio farejar as calças da assustada Inês.
- Vês? É muito estúpido este Cometa. Só tem corpo.
Inês, mais calma, acarinhou o animal que agradeceu com um uivo fininho.      
A um recanto do jardim havia uma fonte decorada com um painel de azulejo representando Adão e Eva no paraíso. Era uma imagem digna daquele lugar edílico. 
Foi aí, num banco de pedra, que as duas jovens se sentaram conversando sobre banalidades. O Cometa deitou-se junto delas emitindo pequenos ganidos. O ar estava cheio de sons melódicos: pardais, abelhas, um melro, grilos, interpretavam um maravilhoso concerto. Inês admirava a bela fonte cuja água era pura, leve e fresca.
- Si può bere quest’ acqua?
- Quê!?
- Desculpa. Podemos beber desta água?
- Esta água é muito boa. Dizem que faz bem aos ossos.
- Era bom que fosse boa para a memória. Bem precisava.
- Tu vais recuperar. Tem fé.
Passaram por um portão metálico já meio consumido pelo tempo. Em frente estendia-se uma enorme vinha. A seguir erguiam-se pinheiros mansos, o bosque e lá ao longe avistava-se a Serra da Estrela ainda salpicada de branco apesar de já estarmos em Abril.
- Algum dia foste à serra?
- Non lo so. Non mi ricordo.
- Desculpa. Estava-me a esquecer da tua amnésia.
Ao fundo da quinta, entre junco e salgueiros, avistava-se o lago que era alimentado pelas inúmeras nascentes da região.
- Aquele lago…
- Sim. Foi ali que o Carlitos te encontrou. Repara que a seguir é a estrada. Alguém te abandonou ali.
- Não me lembro.
 Não se lembrava, mas a imagem do lago fê-la estremecer de medo. Parecia que alguma recordação medonha tentava furar o bloqueio que o seu cérebro criou.
- Acho giro o teu sotaque italiano. Deves ter dupla nacionalidade. Nasceste em Portugal ou na Itália?
- Não sei. Não sei nada de mim.
- Quando recuperares a memória vais ter muito que contar.
Ao longe ouviu-se o som estridente da voz da Florinda.
- É meninas. O almoço está na mesa. Já chega de moina por hoje.
Voltaram à casa das Tulipas e foram contempladas por um sumptuoso almoço: borrego assado no forno. Inês e Sofia passaram o resto da tarde em brincadeiras. Correram pela quinta, apanharam flores, encontraram um ninho de melro e Inês ficou a conhecer o Caramelo: um gato amarelo que fez as delicias das raparigas com as suas brincadeiras. Rebolava-se no chão, subia às árvores e perseguia as galinhas pondo o galinheiro em absoluto estado de confusão. Os gatos são seres fascinantes. Coabitam connosco há milénios, não nos reconhecem como donos e levam-nos a tratar deles em troca de quase nada.
Foram ter com o pai de Sofia que cavava um canteiro. Era um homem triste que se limitou a acenar e voltou para a sua lide de amanhar a terra.
- O que a minha mãe fala a mais, fala o meu pai a menos.
- Parece-me ser boa pessoa e a tua mãe é muito divertida.
- Vivem nesta quinta desde sempre. O meu pai trata da cultivação e a minha mãe da cozinha. Somos pobres. Eu espero bater asas e sair daqui para fora o mais depressa possível.
- És estudante?
- Sim. Estou a acabar o 12.º ano. Para o ano vou para a universidade. E tu? Também deves ser estudante.
- No lo so.
- Desculpa.
- Já te disse para não estares sempre a pedir desculpa. Hoje não é dia de aulas?
- Não. Estamos de férias. São as férias da Páscoa.

Toda a tarde, ninguém viu o Senhor Afonso. A Dona Joaninha confidenciou a Inês que ele passava assim muitos dias fechado no escritório. Era verdade. Os dias de Afonso eram tristes e solitários. Mesmo quando não se isolava no escritório vinha para a varanda, sentava-se numa cadeira de baloiço e ali passava a tarde envolto em sombrios pensamentos. A única companhia que tolerava era o Cometa que se deitava a seus pés assumindo o mesmo ar melancólico. As pessoas habituaram-se a não o incomodar. Quando isso acontecia, ele reagia mal. Respondia de forma grosseira e ficava de mau humor. Quando a Sofia era pequena ainda era costume sentá-la nos joelhos e contar-lhe histórias. Ela chamava-o avô. Ele não gostava e corrigia-a.
- Eu sou teu padrinho, não sou teu avô.
Sofia ficava a olhar um pouco triste. Gostava daquele homem rude. Gostava de ser sua neta, mas ele não queria que assim fosse. Contentava-se em chamar avó à Dona Joaninha.   
Inês chegou à noite cansada. Deitou-se na cama que lhe destinaram e rezou para que a sua memória voltasse. Depressa adormeceu embalada pelo silêncio da quinta. Amanhã seria outro dia cheio de dúvidas e de interrogações.        

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

NÃO TENHO CRÉDITO

Nunca ganhei muito, mas aprendi a gastar sempre menos do que ganhava. Podia ser pouco menos e nem sempre era possível, mas qualquer deslize seria compensado logo que possível. Assim consegui viver sempre sem dever nada a ninguém. Quando há alguma despesa maior ou desejo comprar algo, uso a técnica de poupar antes e comprar depois. Sei bem que o contrário não funciona. Os banqueiros e bancários ficam atónitos com tal comportamento. Na sua formação, ninguém lhe explicou que há pessoas assim que fogem à formatação geral. Ninguém lhe explicou, porque pessoas como eu não dão lucro aos bancos e são indesejáveis. Uma senhora, numa propaganda telefónica, quase me insultou quando lhe disse que não vivia a crédito, nem precisava de crédito. – Como não!? Mesmo que tenha grandes recursos, é impossível não aproveitar as nossas condições! – Disse ela visivelmente ou audivelmente zangada. Aqui há tempos precisei de reservar um quarto em Lisboa e socorri-me de uma agência on-line bem conhecida. Acontece que só me faziam a reserva após apresentação do número do cartão de crédito. Liguei para eles a explicar que não tinha cartão de crédito. A funcionária ficou baralhada com tal aberração. Então eu ia alugar um quarto em Lisboa sem cartão de crédito? Disse que me contactaria mais tarde. Acabei por ligar para a unidade hoteleira, contei-lhe o sucedido e eles fizeram-me a reserva se mais confusões. Antigamente, algumas pessoas a quem sobrava dinheiro, usavam os bancos para o guardar e para obter alguns juros. Hoje é praticamente obrigatório ter conta bancária. A próxima batalha a ganhar pelos bancos é obrigar toda a gente a ter cartão de crédito. Assim vão levando pessoas, famílias e países a viver muito acima das possibilidades. Assim vão dominando a sociedade, até ficarem com tudo. Eu vou resistindo, porque já pertenço a uma minoria desprezível.

domingo, 20 de agosto de 2017

LA LUNA - DANCE

Corria o ano de 1986 quando abriu a Danceteria da Ponte em Meruge – Oliveira do Hospital. Uma nova discoteca no Concelho a juntar à mítica “Okay”. Animaram-se as noites de sextas-feiras e sábados. A casa trouxe ainda a novidade da matiné domingueira. Eu era um jovem estudante e sem grandes posses para ir à discoteca. Note-se que nesse tempo era tão caro como hoje, mas ganhava-se cinco vezes menos. Depois fui cumprir o serviço militar e quando voltei, a Danceteria da Ponte estava encerrada para obras. Reabriu em 1989 com o nome “La Luna”. Comecei então a ser cliente habitual. De cliente passei a funcionário durante oito anos. Aqui encontrei momentos de grande diversão a amizades fortes que ficaram para sempre. Muita história haveria para contar, mas fico-me pela recordação da La Luna que também está na memória de muitos leitores deste blog. Na imagem estão dois flyer’s da minha coleção.   

sexta-feira, 28 de julho de 2017

OS NOMES OU A CADEIRA QUE RANGE


Nada nem ninguém tem nome. Não é natural ter nome. Pelo menos era assim nesse longo período de tempo desde o Big Bang até haver esta coisa estranha chamada humanidade. Sabe-se lá em que ponto da nossa evolução é que desatámos a dar nomes às coisas, às plantas, aos animais e a nós mesmo. Os nomes foram inventados a condizer com o aspeto das coisas. Imaginem que não era assim e que chamávamos colibri a um elefante e crocodilo a uma joaninha. Uma cadeira é uma cadeira. Não é uma montanha. Fica-lhe bem o nome cadeira assim como à montanha fica-lhe bem ser montanha. Já viram eu a dizer a alguém: Puxe por aquela montanha e sente-se. 

Por falar nisso, a minha cadeira range por todo o lado e a segurança não será muita. Mesmo que fosse bem segura não servia para nenhuma atividade de montanhismo. Perdão: cadeirismo. 

Os nomes das pessoas também deviam ter algo a ver com os donos, mas isso não é possível. É que nós crescemos e envelhecemos. Mudamos de aspeto, mas não mudamos de nome. Em qualquer ponto da nossa vida vamos estar desalinhados com o nosso nome. Miguel fica bem a um menino, mas o Miguelito, se tiver sorte e saúde, pode chegar aos cem anos ou mais. Nessa altura devia chamar-se Joaquim, Américo ou Albertino. 

A cadeira continua a queixar-se do meu peso. A queixar-se ou a ameaçar atirar-me ao chão. Não entendo este range, range. Não falo cadeirês. 

Outro problema com os nomes das pessoas é que é escolhido ainda durante a gravidez. Não se pode escolher um nome em função do aspeto da criança. Eu sei que há as ecografias, mas não mostram grande coisa. Pelo menos eu já vi algumas e não vejo rigorosamente nada. Se fosse o pai talvez conseguisse distinguir um lindo menino naquele monte de manchas em forma de molde de funil. De qualquer forma há quem veja o sexo do bebé e é nesse ponto que eu admiro os olhos da medicina. Se for rapaz já podemos riscar da lista os nomes de Cátia Raquel, Jéssica Beatriz ou Vanessa Isabel. Já só ficam o Ruben, o Afonso, o Rodrigo e o Duarte. 

A minha cadeira dá sinais de ceder. É melhor começar a preocupar-me.

Depois dos nomes vêm os apelidos. São os nomes herdados dos pais que já vêm dos avós, bisavós e por aí fora através da árvore genealógica da qual somos os últimos frutos. Todos temos a nossa árvore, mas haverá um ponto em que encontramos um tronco comum sem serem os míticos Adão e Eva. Não é preciso mito nenhum para explicar nada. A matemática serve muito bem. Cada um de nós é filho de dois, neto de quatro, bisneto de oito, trisneto de dezasseis, tetraneto de trinta e dois… Estamos assim perante uma progressão geométrica de razão dois. (cada termo é o dobro do anterior). Em apenas cinquenta gerações já atingimos um número de antepassados muito superior ao número de pessoas que existem ou existiram em todas as gerações somadas. Logicamente temos que ter muitos antepassados comuns e muitos mais quanto mais recuarmos no tempo até chegarmos à conclusão bíblica de que somos todos irmãos. 

Podia dizer mais qualquer coisa, mas vou trocar de cadeira antes de arrumar com o samarro no chão. Fica para a próxima.

(Vítor Fernandes in "http://vpf-escrita.blogspot.pt/2014/05/ponto-zero-012.html")