domingo, 20 de agosto de 2017

LA LUNA - DANCE

Corria o ano de 1986 quando abriu a Danceteria da Ponte em Meruge – Oliveira do Hospital. Uma nova discoteca no Concelho a juntar à mítica “Okay”. Animaram-se as noites de sextas-feiras e sábados. A casa trouxe ainda a novidade da matiné domingueira. Eu era um jovem estudante e sem grandes posses para ir à discoteca. Note-se que nesse tempo era tão caro como hoje, mas ganhava-se cinco vezes menos. Depois fui cumprir o serviço militar e quando voltei, a Danceteria da Ponte estava encerrada para obras. Reabriu em 1989 com o nome “La Luna”. Comecei então a ser cliente habitual. De cliente passei a funcionário durante oito anos. Aqui encontrei momentos de grande diversão a amizades fortes que ficaram para sempre. Muita história haveria para contar, mas fico-me pela recordação da La Luna que também está na memória de muitos leitores deste blog. Na imagem estão dois flyer’s da minha coleção.   

sexta-feira, 28 de julho de 2017

OS NOMES OU A CADEIRA QUE RANGE


Nada nem ninguém tem nome. Não é natural ter nome. Pelo menos era assim nesse longo período de tempo desde o Big Bang até haver esta coisa estranha chamada humanidade. Sabe-se lá em que ponto da nossa evolução é que desatámos a dar nomes às coisas, às plantas, aos animais e a nós mesmo. Os nomes foram inventados a condizer com o aspeto das coisas. Imaginem que não era assim e que chamávamos colibri a um elefante e crocodilo a uma joaninha. Uma cadeira é uma cadeira. Não é uma montanha. Fica-lhe bem o nome cadeira assim como à montanha fica-lhe bem ser montanha. Já viram eu a dizer a alguém: Puxe por aquela montanha e sente-se. 

Por falar nisso, a minha cadeira range por todo o lado e a segurança não será muita. Mesmo que fosse bem segura não servia para nenhuma atividade de montanhismo. Perdão: cadeirismo. 

Os nomes das pessoas também deviam ter algo a ver com os donos, mas isso não é possível. É que nós crescemos e envelhecemos. Mudamos de aspeto, mas não mudamos de nome. Em qualquer ponto da nossa vida vamos estar desalinhados com o nosso nome. Miguel fica bem a um menino, mas o Miguelito, se tiver sorte e saúde, pode chegar aos cem anos ou mais. Nessa altura devia chamar-se Joaquim, Américo ou Albertino. 

A cadeira continua a queixar-se do meu peso. A queixar-se ou a ameaçar atirar-me ao chão. Não entendo este range, range. Não falo cadeirês. 

Outro problema com os nomes das pessoas é que é escolhido ainda durante a gravidez. Não se pode escolher um nome em função do aspeto da criança. Eu sei que há as ecografias, mas não mostram grande coisa. Pelo menos eu já vi algumas e não vejo rigorosamente nada. Se fosse o pai talvez conseguisse distinguir um lindo menino naquele monte de manchas em forma de molde de funil. De qualquer forma há quem veja o sexo do bebé e é nesse ponto que eu admiro os olhos da medicina. Se for rapaz já podemos riscar da lista os nomes de Cátia Raquel, Jéssica Beatriz ou Vanessa Isabel. Já só ficam o Ruben, o Afonso, o Rodrigo e o Duarte. 

A minha cadeira dá sinais de ceder. É melhor começar a preocupar-me.

Depois dos nomes vêm os apelidos. São os nomes herdados dos pais que já vêm dos avós, bisavós e por aí fora através da árvore genealógica da qual somos os últimos frutos. Todos temos a nossa árvore, mas haverá um ponto em que encontramos um tronco comum sem serem os míticos Adão e Eva. Não é preciso mito nenhum para explicar nada. A matemática serve muito bem. Cada um de nós é filho de dois, neto de quatro, bisneto de oito, trisneto de dezasseis, tetraneto de trinta e dois… Estamos assim perante uma progressão geométrica de razão dois. (cada termo é o dobro do anterior). Em apenas cinquenta gerações já atingimos um número de antepassados muito superior ao número de pessoas que existem ou existiram em todas as gerações somadas. Logicamente temos que ter muitos antepassados comuns e muitos mais quanto mais recuarmos no tempo até chegarmos à conclusão bíblica de que somos todos irmãos. 

Podia dizer mais qualquer coisa, mas vou trocar de cadeira antes de arrumar com o samarro no chão. Fica para a próxima.

(Vítor Fernandes in "http://vpf-escrita.blogspot.pt/2014/05/ponto-zero-012.html")

quinta-feira, 27 de julho de 2017

SOB O SIGNO DO ROCK

O dia de ontem foi gerido pelo signo do Rock. No dia em que Sir Mick Jagger completou setenta e quatro anos, tivemos Xutos & Pontapés em Oliveira do Hospital. Já no post anterior falei do Xutos e da sua importância na nossa música. O álbum “Circo de Feras” apanhou-me na tropa em 1987. Logo no ano seguinte sai o álbum “88” que também ainda me apanhou na mesma situação. Deste disco faz parte o tema “A Minha Casinha”. Um camarada meu tinha a seguinte versão da letra:

As saudades que eu já tenho
Da minha casa de banho,
Onde só lá cago eu.
Meu Deus, como é bom cagar 
e ao mesmo tempo sonhar
Com as miúdas do liceu. 

Este dia, marcado pelo Rock, ainda me trouxe mais uma surpresa. A minha amiga Cristina, quase sempre ausente, navegando pelos catorze mares, deu-me o meu presente de aniversário, apenas com três meses de atraso. Como mostra a foto, tive direito a uma magnífica almofada com o símbolo da minha banda de eleição. Pequenos e valiosos mimos que me deixam feliz. Obrigado Cristina. Valeu a pena ensinar-te a desenhar uma borboleta quando tinhas sete anitos. Valeu a pena ver-te crescer. Tudo vale a pena quando se tem pessoas como tu. Que o espírito do Rock esteja sempre connosco.


quarta-feira, 26 de julho de 2017

AQUI... XUTOS & PONTAPÉS!!!!

Em 1980 tinha 14 anos. Assim posso dizer que a década de 80, pródiga em grandes mudanças, foi a década que me viu ir de menino até homem. Quando em 1980 apareceu o Rui Veloso a cantar o Chico Fininho, deu-se a grande revolução da música portuguesa. Rock cantado em português era a novidade que fez disparar o aparecimento de novas bandas. Júlio Isidro, no seu mítico programa “Passeio dos Alegres”, apresentava uma nova banda todos os domingos. Assim aparecem os GNR, UHF, Iodo, NZZN, Albatroz, Táxi, CTT, Trabalhadores do Comércio, Salada de Fruta, Rádio Macau, Rockivários e Xutos & Pontapés, entre outros. Claro que não havia mercado para tanta banda e a maior parte acabou por desaparecer. Ficaram os bons ou os que tiveram mais sorte em cair nas boas graças do público. Entre os sobreviventes ficaram os Xutos. Eles, tal como os UHF e outros, já existiam antes da explosão do “rock português”, mas é nessa altura que dão nas vistas. Ainda assim, só em 1987, com o lançamento do histórico álbum “Circo de Feras”, conquistam o grande público de forma marcante. Os Xutos são os nossos Rolling Stones. Eles não negam a influência que a Grande Banda teve na sua vida. Eles têm a mesma magia de transformar em clássico qualquer música que lancem. Eles têm aquela mística de unir gerações. Nos seus concertos é possível ver as artroses a conviver com as borbulhas em perfeita harmonia. Essa magia vai acontecer logo à noite em Oliveira do Hospital, precisamente no dia em que Mick Jagger faz 74 anos. Noite mágica, certamente.

terça-feira, 25 de julho de 2017

5.000 VISITAS


A MENINA E O LIVRO

A menina destacou-se do grupo de colegas que, ordeiramente, entrou na feira do livro. Saiu das duas filas paralelas que a professora e a auxiliar já não conseguiam manter. Eu sei que é por questões de segurança, mas faz-me sempre pena ver as crianças enfileiradas debaixo de uma chuva de “nãos”. Não saiam da fila, não corram, não larguem a mão do colega, não façam barulho… Não fui criado assim e cresci feliz. A menina furou as regras e foi direita à banca dos livros mais próxima. Teve que se pôr nos bicos dos pés, porque os seus seis ou sete anitos, ainda não chegavam aos livros. Pegou num livro bem colorido. Abriu. A felicidade instalou-se no seu rosto. A auxiliar chamou.

- Ana. Ó Anita. (Nome fictício) 

Ela não ouviu. Ela não estava ali. Ela viajava por um mundo mágico criado por quem escreveu e ilustrou aquelas páginas. Que grande prazer seria para o autor se ali estivesse no meu lugar a observar a cena. Divina felicidade é criar mundos onde as crianças possam entrar, viajar, sonhar e crescer.

- Ana. Ó Anita.

O chamamento foi mais ríspido, mas ela não ouviu. A sua boca sorria, os seus olhos sorriam e todo o seu corpo franzino sorria. Por momentos tive a ilusão de que a banca dos livros, a enorme tenda da feira, a cidade e todo o universo sorriam também. A auxiliar, impaciente, veio e tirou-lhe o livro da mão. Levou-a pela mão, mas ela foi sempre a olhar para trás. Nessa altura, os seus olhos cruzaram-se com os meus. Vi naquele olhar, inocente e belo, o desejo de um dia construir mundos onde as crianças possam entrar, viajar, sonhar e crescer.

(http://vpf-escrita.blogspot.pt/2017/05/ponto-zero-23-menina-e-o-livro.html)

segunda-feira, 24 de julho de 2017

HOJE HÁ CIRCO

Foto meramente ilustrativa de autor desconhecido
“Há cá comédias”. A frase ecoava pela aldeia, muito antes de um altifalante, de pinha e corneta, confirmar a notícia. Nós, os putos, corríamos para o largo da fonte. Era aí que os comediantes costumavam montar o seu aparato todo. Um carro, uma roulotte, Um trapézio com cinco, seis metros e, era tudo. Eles diziam que eram um circo, mas o povo chamava-lhe comediantes ou saltimbancos. No altifalante cantavam a Tonicha e o Conjunto António Mafra. A música era interrompida de vez em quando por uma voz rouca: “hoje, em Lagos da Beira, grandioso espectáculo de Circo. Trapezistas voadores, ilusionismo, malabaristas, contorcionistas e os engraçados palhaços: Belita e Falta D’ar”. À noite, o povo fazia uma roda em volta do largo. Um homem tirava pombas e ramos de flores de caixas que estavam vazias. Uma menina dobrava-se toda até chegar com o queixo aos calcanhares. A dupla de palhaços fazia as delícias de miúdos e graúdos. Uma senhora, com as mãos atrás das costas, recortava papel colorido e dali saía um naperon, o leme de um navio, uma palmeira… Depois era o rapaz que subia ao trapézio. O coração do povo parava de admiração e medo. Depois de algumas piruetas, terminava com um salto mortal. Respirava-se de alívio quando ele punha os pés no chão. Uma menina dava a volta ao povo a vender rifas. Os forretas fugiam. Eu tinha sempre dez tostões para a ocasião. Por fim, havia aplausos. No dia seguinte, desmontavam tudo e seguiam para outra terra. Durante uma semana, não se falava noutra coisa. Nós, os putos, montávamos o nosso próprio circo. O espectáculo era anunciado por um funil. Por falta de formação, apenas repetíamos as piadas de Belita e Falta D’ar. Um dia, um desses circos, trouxe um chimpanzé. A rapaziada, primeiro a medo, depois mais afoita, foi desafiando o macaco para ver macacadas. Acontece que o animal não estava para isso e vai de atirar pedras em todas as direcções. Muitos vidros escaparam por milagre, mas a cabeça de um rapaz teve direito a uma pedrada e consequentes seis pontos.

SKETCHBOOK - 2


quinta-feira, 20 de julho de 2017

BRANDOA

A minha tia Francelina foi uma das muitas pessoas que, nos anos 50/60, procuraram em Lisboa melhores condições de vida. Foi então viver para a Brandoa, onde eu quase nasci. De facto, a minha mãe estava em casa dessa saudosa tia quando chegou a hora de eu nascer. Não havia uma ambulância, nem um táxi. Um senhor deu-lhe boleia para o Hospital de Santa Maria. Não havia cama para ela por causa de uma infestação na Maternidade Magalhães Coutinho. Foi então encaminhada para a “Alfredo da Costa” onde, finalmente, nasci. Quando fui para a Brandoa, fui ocupar um berço que a minha tia tinha dos filhos, Jorge e Luís. Primeiro foi preciso desocupar o berço, não dos meus primos, mas de uma gata que o usou para dar à luz seis lindos gatinhos. Durante a minha infância e adolescência passei muitas férias na Brandoa. A minha chegada à Rua 1-A, era um acontecimento. Dias antes, já a minha tia andava a anunciar, à vizinhança, a chegada da irmã e do sobrinho. Recordo aqui algumas pessoas adultas e crianças que comigo brincaram. A Dona Gina, esposa do polícia Valentim, tinha uma mercearia onde íamos comprar um rajá. Era um gelado caseiro que, basicamente, era refresco congelado com um palito para segurar. A dona Isilda era das poucas pessoas a ter televisão. Ali juntava os garotos todos sentados no chão a ver o Palhaço Bozo. Tinha um filho de nome Cláudio e uma filha de nome Belmira (A Mirinha). O Claudio era ainda bebé. A Mirinha era da minha idade e brincávamos aos papás e às mamãs. Era uma chatice quando lhe tinha que adormecer as bonecas. Outras miúdas com quem brinquei eram a Paula e a Rosa, filhas de um tal Ferrão. De rapazes, recordo o Vladimiro, que tinha uma bicicleta e o Vítor com quem travava duelos de morte ao pôr-do-sol com pistolas de fulminantes. Recordo outros rostos, mas os nomes já se desvanecem nas brumas da memória. Além do Jorge e do Luís, a minha tia teve mais dois filhos: O Carlos e a Lurdes. Vieram um a seguir ao outro com partos difíceis. Foi nessa época que passei mais tempo na Brandoa e ganhei amizades. Ainda acompanhei o crescimento desses primos mais novos. O Carlos era bem saudável, mas a Lurdes nasceu com um problema cardíaco, só resolvido aos três anos com uma operação de alto risco. Recordo a minha tia Francelina que me enchia de carinho, mas recordo também o meu tio Manuel, que me estimava sem distinção dos próprios filhos. Por vezes até era privilegiado, mesmo quando me obrigava a comer a sopa. Hoje, os meus primos estão longe. Os meus tios já partiram do mundo, mas não da minha memória. Todos eles habitam no meu coração.