segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

EU SOU O PAI NATAL

O Natal, em termos religiosos não me diz nada, porque não há nada para dizer. Também já deixou de ser uma festa religiosa para se transformar num festival de consumo. O seu principal símbolo é o Pai Natal, criado pela Coca-Cola. Quando me propuseram dar vida a tal personagem, fiquei a pensar nos meus princípios, mas acabei por aceitar por um motivo maior do que as minhas convicções. Dar alguns momentos de felicidade às crianças seria fantástico. Seria fantástico e está a ser mais que fantástico. Estou a viver dias de verdadeiro encanto. Todos os argumentos caiem por terra quando uma criança me abraça e diz que gosta muito de mim. Tudo esquece quando rostos de quatro ou cinco anos avançam para os meus braços e me perguntam de olhos bem abertos: Tu existes mesmo? Um simples rebuçado saído de um saco arranca sorrisos de inocente felicidade. Hoje, um menino, perguntou-me se eu fazia magia. Eu disse que ele é que fazia magia. Ele, admirado, perguntou como conseguiria fazer magia. Disse-lhe para acenar a uma senhora que estava a uns metros de distância. Ele assim fez e a senhora retribuiu com um aceno e um beijo. Isto é magia, expliquei eu ao menino. Ele não respondeu, mas o forte abraço disse tudo. É desta magia que o mundo precisa. Obrigado à Câmara Municipal de Oliveira do Hospital por me dar a oportunidade de fazer magia.

domingo, 10 de setembro de 2017

A CIGANITA

Foto retirada da Internet. Autor desconhecido
Fui a um supermercado. Estacionei e fiquei ali à porta a satisfazer necessidades de nicotina. Junto à entrada andava uma miúda de etnia cigana a pedir uma moeda a quem entrava. Ninguém lhe dava nada. Qualquer pessoa podia muito bem argumentar que os pais recebiam subsídios, tinham negócios escuros e ainda mandavam a filha pedir. Talvez tivessem razão ou talvez não. Como se pode pintar logo a história de uma família olhando apenas para uma miúda morena de cabelos negros? Imaginei aquela menina vestida de roupas de marca a pedir ajuda para algo. Será que alguém passava a direito? Acabei o meu cigarro e dirigi-me à entrada. A miúda acercou-se de mim e pediu-me uma moeda. Olhei para os seus olhos escuros e suplicantes e não resisti. Dei-lhe um Euro. Um fulano que ia a sair, olhou para mim com ar reprovador. Mentalmente, mandei-o marrar num comboio de açúcar para ver se era doce. Entrei numa papelaria que há no supermercado e comprei uma raspadinha. Raspei e vi aparecer três pombas numa linha. Mais uma raspadela e lá estava o prémio de vinte Euros. Se acreditasse em algo divino, muito haveria para deduzir desta história. Certo é que, à saída, a miúda sorriu para mim com ar de cumplicidade.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

NÃO TENHO CRÉDITO

Nunca ganhei muito, mas aprendi a gastar sempre menos do que ganhava. Podia ser pouco menos e nem sempre era possível, mas qualquer deslize seria compensado logo que possível. Assim consegui viver sempre sem dever nada a ninguém. Quando há alguma despesa maior ou desejo comprar algo, uso a técnica de poupar antes e comprar depois. Sei bem que o contrário não funciona. Os banqueiros e bancários ficam atónitos com tal comportamento. Na sua formação, ninguém lhe explicou que há pessoas assim que fogem à formatação geral. Ninguém lhe explicou, porque pessoas como eu não dão lucro aos bancos e são indesejáveis. Uma senhora, numa propaganda telefónica, quase me insultou quando lhe disse que não vivia a crédito, nem precisava de crédito. – Como não!? Mesmo que tenha grandes recursos, é impossível não aproveitar as nossas condições! – Disse ela visivelmente ou audivelmente zangada. Aqui há tempos precisei de reservar um quarto em Lisboa e socorri-me de uma agência on-line bem conhecida. Acontece que só me faziam a reserva após apresentação do número do cartão de crédito. Liguei para eles a explicar que não tinha cartão de crédito. A funcionária ficou baralhada com tal aberração. Então eu ia alugar um quarto em Lisboa sem cartão de crédito? Disse que me contactaria mais tarde. Acabei por ligar para a unidade hoteleira, contei-lhe o sucedido e eles fizeram-me a reserva se mais confusões. Antigamente, algumas pessoas a quem sobrava dinheiro, usavam os bancos para o guardar e para obter alguns juros. Hoje é praticamente obrigatório ter conta bancária. A próxima batalha a ganhar pelos bancos é obrigar toda a gente a ter cartão de crédito. Assim vão levando pessoas, famílias e países a viver muito acima das possibilidades. Assim vão dominando a sociedade, até ficarem com tudo. Eu vou resistindo, porque já pertenço a uma minoria desprezível.

domingo, 20 de agosto de 2017

LA LUNA - DANCE

Corria o ano de 1986 quando abriu a Danceteria da Ponte em Meruge – Oliveira do Hospital. Uma nova discoteca no Concelho a juntar à mítica “Okay”. Animaram-se as noites de sextas-feiras e sábados. A casa trouxe ainda a novidade da matiné domingueira. Eu era um jovem estudante e sem grandes posses para ir à discoteca. Note-se que nesse tempo era tão caro como hoje, mas ganhava-se cinco vezes menos. Depois fui cumprir o serviço militar e quando voltei, a Danceteria da Ponte estava encerrada para obras. Reabriu em 1989 com o nome “La Luna”. Comecei então a ser cliente habitual. De cliente passei a funcionário durante oito anos. Aqui encontrei momentos de grande diversão a amizades fortes que ficaram para sempre. Muita história haveria para contar, mas fico-me pela recordação da La Luna que também está na memória de muitos leitores deste blog. Na imagem estão dois flyer’s da minha coleção.   

sexta-feira, 28 de julho de 2017

OS NOMES OU A CADEIRA QUE RANGE


Nada nem ninguém tem nome. Não é natural ter nome. Pelo menos era assim nesse longo período de tempo desde o Big Bang até haver esta coisa estranha chamada humanidade. Sabe-se lá em que ponto da nossa evolução é que desatámos a dar nomes às coisas, às plantas, aos animais e a nós mesmo. Os nomes foram inventados a condizer com o aspeto das coisas. Imaginem que não era assim e que chamávamos colibri a um elefante e crocodilo a uma joaninha. Uma cadeira é uma cadeira. Não é uma montanha. Fica-lhe bem o nome cadeira assim como à montanha fica-lhe bem ser montanha. Já viram eu a dizer a alguém: Puxe por aquela montanha e sente-se. 

Por falar nisso, a minha cadeira range por todo o lado e a segurança não será muita. Mesmo que fosse bem segura não servia para nenhuma atividade de montanhismo. Perdão: cadeirismo. 

Os nomes das pessoas também deviam ter algo a ver com os donos, mas isso não é possível. É que nós crescemos e envelhecemos. Mudamos de aspeto, mas não mudamos de nome. Em qualquer ponto da nossa vida vamos estar desalinhados com o nosso nome. Miguel fica bem a um menino, mas o Miguelito, se tiver sorte e saúde, pode chegar aos cem anos ou mais. Nessa altura devia chamar-se Joaquim, Américo ou Albertino. 

A cadeira continua a queixar-se do meu peso. A queixar-se ou a ameaçar atirar-me ao chão. Não entendo este range, range. Não falo cadeirês. 

Outro problema com os nomes das pessoas é que é escolhido ainda durante a gravidez. Não se pode escolher um nome em função do aspeto da criança. Eu sei que há as ecografias, mas não mostram grande coisa. Pelo menos eu já vi algumas e não vejo rigorosamente nada. Se fosse o pai talvez conseguisse distinguir um lindo menino naquele monte de manchas em forma de molde de funil. De qualquer forma há quem veja o sexo do bebé e é nesse ponto que eu admiro os olhos da medicina. Se for rapaz já podemos riscar da lista os nomes de Cátia Raquel, Jéssica Beatriz ou Vanessa Isabel. Já só ficam o Ruben, o Afonso, o Rodrigo e o Duarte. 

A minha cadeira dá sinais de ceder. É melhor começar a preocupar-me.

Depois dos nomes vêm os apelidos. São os nomes herdados dos pais que já vêm dos avós, bisavós e por aí fora através da árvore genealógica da qual somos os últimos frutos. Todos temos a nossa árvore, mas haverá um ponto em que encontramos um tronco comum sem serem os míticos Adão e Eva. Não é preciso mito nenhum para explicar nada. A matemática serve muito bem. Cada um de nós é filho de dois, neto de quatro, bisneto de oito, trisneto de dezasseis, tetraneto de trinta e dois… Estamos assim perante uma progressão geométrica de razão dois. (cada termo é o dobro do anterior). Em apenas cinquenta gerações já atingimos um número de antepassados muito superior ao número de pessoas que existem ou existiram em todas as gerações somadas. Logicamente temos que ter muitos antepassados comuns e muitos mais quanto mais recuarmos no tempo até chegarmos à conclusão bíblica de que somos todos irmãos. 

Podia dizer mais qualquer coisa, mas vou trocar de cadeira antes de arrumar com o samarro no chão. Fica para a próxima.

(Vítor Fernandes in "http://vpf-escrita.blogspot.pt/2014/05/ponto-zero-012.html")

quinta-feira, 27 de julho de 2017

SOB O SIGNO DO ROCK

O dia de ontem foi gerido pelo signo do Rock. No dia em que Sir Mick Jagger completou setenta e quatro anos, tivemos Xutos & Pontapés em Oliveira do Hospital. Já no post anterior falei do Xutos e da sua importância na nossa música. O álbum “Circo de Feras” apanhou-me na tropa em 1987. Logo no ano seguinte sai o álbum “88” que também ainda me apanhou na mesma situação. Deste disco faz parte o tema “A Minha Casinha”. Um camarada meu tinha a seguinte versão da letra:

As saudades que eu já tenho
Da minha casa de banho,
Onde só lá cago eu.
Meu Deus, como é bom cagar 
e ao mesmo tempo sonhar
Com as miúdas do liceu. 

Este dia, marcado pelo Rock, ainda me trouxe mais uma surpresa. A minha amiga Cristina, quase sempre ausente, navegando pelos catorze mares, deu-me o meu presente de aniversário, apenas com três meses de atraso. Como mostra a foto, tive direito a uma magnífica almofada com o símbolo da minha banda de eleição. Pequenos e valiosos mimos que me deixam feliz. Obrigado Cristina. Valeu a pena ensinar-te a desenhar uma borboleta quando tinhas sete anitos. Valeu a pena ver-te crescer. Tudo vale a pena quando se tem pessoas como tu. Que o espírito do Rock esteja sempre connosco.


quarta-feira, 26 de julho de 2017

AQUI... XUTOS & PONTAPÉS!!!!

Em 1980 tinha 14 anos. Assim posso dizer que a década de 80, pródiga em grandes mudanças, foi a década que me viu ir de menino até homem. Quando em 1980 apareceu o Rui Veloso a cantar o Chico Fininho, deu-se a grande revolução da música portuguesa. Rock cantado em português era a novidade que fez disparar o aparecimento de novas bandas. Júlio Isidro, no seu mítico programa “Passeio dos Alegres”, apresentava uma nova banda todos os domingos. Assim aparecem os GNR, UHF, Iodo, NZZN, Albatroz, Táxi, CTT, Trabalhadores do Comércio, Salada de Fruta, Rádio Macau, Rockivários e Xutos & Pontapés, entre outros. Claro que não havia mercado para tanta banda e a maior parte acabou por desaparecer. Ficaram os bons ou os que tiveram mais sorte em cair nas boas graças do público. Entre os sobreviventes ficaram os Xutos. Eles, tal como os UHF e outros, já existiam antes da explosão do “rock português”, mas é nessa altura que dão nas vistas. Ainda assim, só em 1987, com o lançamento do histórico álbum “Circo de Feras”, conquistam o grande público de forma marcante. Os Xutos são os nossos Rolling Stones. Eles não negam a influência que a Grande Banda teve na sua vida. Eles têm a mesma magia de transformar em clássico qualquer música que lancem. Eles têm aquela mística de unir gerações. Nos seus concertos é possível ver as artroses a conviver com as borbulhas em perfeita harmonia. Essa magia vai acontecer logo à noite em Oliveira do Hospital, precisamente no dia em que Mick Jagger faz 74 anos. Noite mágica, certamente.

terça-feira, 25 de julho de 2017

5.000 VISITAS


A MENINA E O LIVRO

A menina destacou-se do grupo de colegas que, ordeiramente, entrou na feira do livro. Saiu das duas filas paralelas que a professora e a auxiliar já não conseguiam manter. Eu sei que é por questões de segurança, mas faz-me sempre pena ver as crianças enfileiradas debaixo de uma chuva de “nãos”. Não saiam da fila, não corram, não larguem a mão do colega, não façam barulho… Não fui criado assim e cresci feliz. A menina furou as regras e foi direita à banca dos livros mais próxima. Teve que se pôr nos bicos dos pés, porque os seus seis ou sete anitos, ainda não chegavam aos livros. Pegou num livro bem colorido. Abriu. A felicidade instalou-se no seu rosto. A auxiliar chamou.

- Ana. Ó Anita. (Nome fictício) 

Ela não ouviu. Ela não estava ali. Ela viajava por um mundo mágico criado por quem escreveu e ilustrou aquelas páginas. Que grande prazer seria para o autor se ali estivesse no meu lugar a observar a cena. Divina felicidade é criar mundos onde as crianças possam entrar, viajar, sonhar e crescer.

- Ana. Ó Anita.

O chamamento foi mais ríspido, mas ela não ouviu. A sua boca sorria, os seus olhos sorriam e todo o seu corpo franzino sorria. Por momentos tive a ilusão de que a banca dos livros, a enorme tenda da feira, a cidade e todo o universo sorriam também. A auxiliar, impaciente, veio e tirou-lhe o livro da mão. Levou-a pela mão, mas ela foi sempre a olhar para trás. Nessa altura, os seus olhos cruzaram-se com os meus. Vi naquele olhar, inocente e belo, o desejo de um dia construir mundos onde as crianças possam entrar, viajar, sonhar e crescer.

(http://vpf-escrita.blogspot.pt/2017/05/ponto-zero-23-menina-e-o-livro.html)